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sábado, 22 de dezembro de 2007

BEZERRA NETO
Jornalista e escritor
E-mail:
bzneto@gmail.com

O rezador e as cobras

Semana de 01 a 08/12/2007
Causo - O rezador foi chamado para fazer uma “limpeza” numa pequena fazenda onde seu proprietário, além da plantação de várias espécies de legumes, milho e feijão, que cultivava, criava também algumas cabeças de gado e ovelhas. Mas havia tempo, ele vivia se queixando da perda de alguns animais, devido à presença de cobras em seu terreno. Eram muitas, as cobras e todo santo dia morria uma rês ou mesmo uma cabra ou cabrito mordidos por cobras venenosas. Calado, o velho rezador ouviu todas as queixas e explicações daquele proprietário, querendo se inteirar do problema que o afligia. Depois aprontou-se para rezar um reza apropriada para a ocasião; benzeu-se e acendeu um cigarro de palha, tirando boas baforadas. Depois, acocorou-se próximo ao mourão da cancela, e tranqüilizou o infortunado fazendeiro.- Não vai ser difícil de fazer – disse. Mas primeiro vai me prometer que vai dar uma de suas rezes a Santo Antonio, para ser leiloada na novena.- Dou! Dou mais de uma! E dou para o senhor também, quantas forem preciso!- Não; uma é bastante. Pegue uma, depois faça doação aos noveneiros do santo para ajudar na construção de sua igreja. Para mim não quero nada!- Como quiser – consentiu o homem.Nesse ponto, o velho se levantou de onde estava e deu três assobios chamando as cobras. Esperou pelas ditas fumando ainda o resto de seu cigarro de palha. Daí para frente foi um desfilar de cobras vindo em direção da cancela de entrada da fazenda; vinhas enfileiradas pelo caminho que dava até a casa grande.Lá vêm as bichinhas – disse calmamente o rezador, ante o olhar estupefato do dono da propriedade e de alguns presentes. O homem quis correr para o alpendre da casa, onde estavam a mulher e os filhos, assustados com o que viam; mas o rezador o impediu, tranqüilizando-o.- Não se avexe!... Elas não lhes causarão nenhum mal. Eu as tenho debaixo de reza. Fique tranqüilo que nada de ruim vai acontecer. E as cobras, de todos os tamanhos, vinham morrer aos seus pés. Ele as pegava uma por uma cravando os dedos polegar e indicador sobre o pescoço, abrindo-lhes a boca. Depois cuspia um cuspe salivado do gosto do tabaco tragado e as serpentes estrebuchavam no chão, mortas. Este é mais um dos causos que conto e que aconteceram de verdade.

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