BEZERRA NETO
Jornalista e escritor
E-mail: bzneto@gmail.com
Semana de 24/11 a 01/12/2007
Em 68 tentei entrar para o comércio, coisa que não deu certo. Constatei logo que não possuía os requisitos necessários a um homem de negócios, e afastei-me do ramo. Mas foi por essa época que tomei parte numa passagem da vida muito interessante: uma cliente da minha loja não atendia os avisos de cobrança, embora estivesse devendo todas as duplicatas de sua compra a crédito. Depois de tentativas várias, através do pessoal de cobrança, resolvi eu mesmo entra em ação e tentar recuperar o que já parecia perdido. Fui, então, à residência dessa senhora e em três oportunidades, não a encontrava em casa; só encontrava uma anciã que me dizia ser sogra da dona da casa. Esta, recebia-me muito bem, convidando-me a sentar e conversar com ela numa saleta bem arrumada com bom gosto no átrio de entrada da casa.Conversamos bastante em todas as três vezes que fui à sua casa. Ela esmerava-se ao falar do filho, um coronel reformado de grande prestígio; falava sobre os netos, que já freqüentavam a universidade; falava sobre coisas familiares, como toda mãe e avó costumam falar dos seus. Acho que ela entendia a razão de minhas constantes visitas, mas nunca falamos sobre esse assunto. Numa terceira e última vez que estive na casa de minha cliente, encontrei o coronel em casa e relatei a ele o meu problema. O homem pediu muitas desculpas pelo comportamento da mulher e quis logo saldar a dívida familiar. Estava meio curvado sobre um móvel da sala principal preenchendo o cheque no valor total da dívida de sua esposa, quando perguntei sobre sua mãe, a bondosa velhinha que me atendia sempre das outras vezes.O homem parou de preencher o cheque e, com certo espanto estampado rosto, indagou-me:- O senhor a conhecia? Fitou-me!- Sim, fizemos uma boa amizade nas vezes que estive aqui. - respondi.Ele parou por alguns instantes. Voltou a preencher o cheque e o trouxe para mim. Agiu como se quisesse revelar algo; pediu-me para o esperar enquanto ia buscar uma coisa no seu quarto de dormir. Voltando, trouxe um quadro com o retrato de sua genitora. Eu a reconheci de imediato.- Foi com esta senhora que conversou? Aqui, nas vezes em que veio à minha casa?- Sim! Aconteceu-lhe alguma coisa?- Não. É que ela já se foi deste mundo faz nove anos!...
Jornalista e escritor
E-mail: bzneto@gmail.com
O Retrato
Semana de 24/11 a 01/12/2007
Em 68 tentei entrar para o comércio, coisa que não deu certo. Constatei logo que não possuía os requisitos necessários a um homem de negócios, e afastei-me do ramo. Mas foi por essa época que tomei parte numa passagem da vida muito interessante: uma cliente da minha loja não atendia os avisos de cobrança, embora estivesse devendo todas as duplicatas de sua compra a crédito. Depois de tentativas várias, através do pessoal de cobrança, resolvi eu mesmo entra em ação e tentar recuperar o que já parecia perdido. Fui, então, à residência dessa senhora e em três oportunidades, não a encontrava em casa; só encontrava uma anciã que me dizia ser sogra da dona da casa. Esta, recebia-me muito bem, convidando-me a sentar e conversar com ela numa saleta bem arrumada com bom gosto no átrio de entrada da casa.Conversamos bastante em todas as três vezes que fui à sua casa. Ela esmerava-se ao falar do filho, um coronel reformado de grande prestígio; falava sobre os netos, que já freqüentavam a universidade; falava sobre coisas familiares, como toda mãe e avó costumam falar dos seus. Acho que ela entendia a razão de minhas constantes visitas, mas nunca falamos sobre esse assunto. Numa terceira e última vez que estive na casa de minha cliente, encontrei o coronel em casa e relatei a ele o meu problema. O homem pediu muitas desculpas pelo comportamento da mulher e quis logo saldar a dívida familiar. Estava meio curvado sobre um móvel da sala principal preenchendo o cheque no valor total da dívida de sua esposa, quando perguntei sobre sua mãe, a bondosa velhinha que me atendia sempre das outras vezes.O homem parou de preencher o cheque e, com certo espanto estampado rosto, indagou-me:- O senhor a conhecia? Fitou-me!- Sim, fizemos uma boa amizade nas vezes que estive aqui. - respondi.Ele parou por alguns instantes. Voltou a preencher o cheque e o trouxe para mim. Agiu como se quisesse revelar algo; pediu-me para o esperar enquanto ia buscar uma coisa no seu quarto de dormir. Voltando, trouxe um quadro com o retrato de sua genitora. Eu a reconheci de imediato.- Foi com esta senhora que conversou? Aqui, nas vezes em que veio à minha casa?- Sim! Aconteceu-lhe alguma coisa?- Não. É que ela já se foi deste mundo faz nove anos!...

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