BEZERRA NETO
Jornalista e escritor
E-mail: bzneto@gmail.com
Semana de 10 a 17/11/2007
Aconteceu durante minha infância e até hoje o fato que vou expor permanece vivo na lembrança dos meus treze para quatorze anos, quando morava com minha família em Arapiraca. Era tarde de sol ameno e eu passava pela fonte d’água doce onde as mulheres costumavam encher seus potes, latas e bacias, levando-os para casa na cabeça. Seguia eu em direção ao campo de futebol do Baixão, bairro um tanto afastado de onde morava: Cacimbas de Baixo, ao lado do “Açude do Governo”. Foi aí que vi um homem montando seu puro sangue (o cavalo mais belo que meus olhos já viram). Imaginei logo que desejavam beber daquela fonte de água cristalina e fria, guardada pelas sombras que davam os frondosos cajueiros em redor. Dava para sentir isso pela freqüência com que o animal batia com um dos cascos dianteiros sobre o chão molhado pela água excedida da barreira da fonte, que derramava.
Pareciam ter vindo de um longo trote, pois o cavalo guardava suor e espumava pelos cantos da boca; suados estavam os dois (cavaleiro e seu troteante horse), ambos parecendo viajantes um tanto exaustos de uma longa viagem, pelo que aparentavam. Os espécimes mais bonitos que podiam existir! – pensei antes de a eles me dirigir para saber se realmente precisavam de ajuda. E que cavalo!... Arreios de prata (sela e arreios eram ornados de um metal reluzente, que devia ser de prata), um rico arranjo de enfeites bem distribuídos... O homem nem se fala!... Talvez um Lorde, vestindo finíssimo terno de linho “pele de ovo”, impecavelmente bem acabado; uma roupa bem cinturada que lhe caía muito bem. Suas botas, bem engraxadas, iam até à altura próxima dos joelhos; tinham brilho de graxa fresca e, talvez por isso, não pretendesse sujá-las na lama, ao apear-se de sua montaria.
O homem permanecia montado, enquanto controlava as rédeas do animal, forçando-o a não tomar daquela água que se derramava das beiras da fonte, indo aos seus cascos, que refregavam até fazer lama. Aproximei-me dos dois: - Deseja água para o cavalo? – perguntei ao cavaleiro. Ele meneou a cabeça de fino chapéu de palhinha, assentindo. Então, apanhei uma cuia que estava à beira da fonte (as apanhadeiras de água costumavam deixar algumas num canto) e a enchi. A água era tão cristalina que dava para ver sobre ela refletida a figura dos dois estranhos; dava para vê-los belos em meio aos arvoredos em redor, bem iluminados pela luz do sol daquela tarde. Que lindo quadro!... Mas, quando me levantei com a água, voltando-me, eis que não havia alma viva ali por perto; nem homem nem cavalo. Só os reencontrei vinte anos depois... Mas essa é uma outra história, que espero contar noutra oportunidade.
Jornalista e escritor
E-mail: bzneto@gmail.com
Encontro com o insólito
Semana de 10 a 17/11/2007
Aconteceu durante minha infância e até hoje o fato que vou expor permanece vivo na lembrança dos meus treze para quatorze anos, quando morava com minha família em Arapiraca. Era tarde de sol ameno e eu passava pela fonte d’água doce onde as mulheres costumavam encher seus potes, latas e bacias, levando-os para casa na cabeça. Seguia eu em direção ao campo de futebol do Baixão, bairro um tanto afastado de onde morava: Cacimbas de Baixo, ao lado do “Açude do Governo”. Foi aí que vi um homem montando seu puro sangue (o cavalo mais belo que meus olhos já viram). Imaginei logo que desejavam beber daquela fonte de água cristalina e fria, guardada pelas sombras que davam os frondosos cajueiros em redor. Dava para sentir isso pela freqüência com que o animal batia com um dos cascos dianteiros sobre o chão molhado pela água excedida da barreira da fonte, que derramava.
Pareciam ter vindo de um longo trote, pois o cavalo guardava suor e espumava pelos cantos da boca; suados estavam os dois (cavaleiro e seu troteante horse), ambos parecendo viajantes um tanto exaustos de uma longa viagem, pelo que aparentavam. Os espécimes mais bonitos que podiam existir! – pensei antes de a eles me dirigir para saber se realmente precisavam de ajuda. E que cavalo!... Arreios de prata (sela e arreios eram ornados de um metal reluzente, que devia ser de prata), um rico arranjo de enfeites bem distribuídos... O homem nem se fala!... Talvez um Lorde, vestindo finíssimo terno de linho “pele de ovo”, impecavelmente bem acabado; uma roupa bem cinturada que lhe caía muito bem. Suas botas, bem engraxadas, iam até à altura próxima dos joelhos; tinham brilho de graxa fresca e, talvez por isso, não pretendesse sujá-las na lama, ao apear-se de sua montaria.
O homem permanecia montado, enquanto controlava as rédeas do animal, forçando-o a não tomar daquela água que se derramava das beiras da fonte, indo aos seus cascos, que refregavam até fazer lama. Aproximei-me dos dois: - Deseja água para o cavalo? – perguntei ao cavaleiro. Ele meneou a cabeça de fino chapéu de palhinha, assentindo. Então, apanhei uma cuia que estava à beira da fonte (as apanhadeiras de água costumavam deixar algumas num canto) e a enchi. A água era tão cristalina que dava para ver sobre ela refletida a figura dos dois estranhos; dava para vê-los belos em meio aos arvoredos em redor, bem iluminados pela luz do sol daquela tarde. Que lindo quadro!... Mas, quando me levantei com a água, voltando-me, eis que não havia alma viva ali por perto; nem homem nem cavalo. Só os reencontrei vinte anos depois... Mas essa é uma outra história, que espero contar noutra oportunidade.

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