BEZERRA NETO
Jornalista e escritor
E-mail: bzneto@gmail.com
Uma fábula
Semana de 19/01 a 26/01/2008
Havia um reinado num grande continente cujo primeiro-ministro era sempre consultado pelo rei. Este não tomava nenhuma decisão sem antes indagar de seu fiel amigo e assessor se estava tudo de acordo com a vontade de Deus. Quando alguma desgraça ocorria naquele reinado, o ministro era logo chamado para decifrar a situação e aconselhar sua majestade sobre a decisão que devia tomar. Durante a seca prolongada na região nordeste, onde o gado morria de fome e sede, por inanição, o ministro consolava sua alteza, dizendo: - “Meu rei, não se preocupe, pois tudo quanto Deus faz e consente, é bem feito”! Durante as cheias do sudeste, onde centenas de pessoas morriam, casas sendo levadas pela correnteza, ou por deslizamentos de barreiras, o ministro estava perto do rei, confortando-o: “Senhor rei, tudo que Deus faz é bem feito”!...Todos os acontecimentos, bons ou ruins, o ministro atribuía aos poderes de Deus, “pois tudo que Ele faz ou deixa de fazer é bem feito”. – Um dia, durante uma das costumeiras caçadas, o rei perdeu um dos dedos polegares, quando socava e enchia de pólvora o cano da espingarda; ela disparou acidentalmente, estando o dedo na boca do cano. O rei queixou-se ao ministro e este, como sempre, quis acalmar ao soberano. “Senhor meu rei, saiba que tudo que Deus faz é bem feito!... Não se contendo de raiva, sua majestade mandou que prendessem o ministro nas masmorras de um presídio político. Quinze anos depois, o rei foi caçar e perdeu-se na mata, sendo apanhado por um grupo de índios canibais e fanáticos de uma tribo, que lhe aprisionou. O rei foi jogado na fogueira e estavam todos dançando e gritando em volta, na maior festança.De repente aqueles gritos e aquela dança pararam. É que haviam percebido que aquele gorduchinho não estava em seu estado físico perfeito: faltava-lhe um dos dedos da mão e, por conseguinte, não podia ser sacrificado aos deuses tribais. O feiticeiro da tribo mandou que soltassem o prisioneiro. Deram-lhe um pontapé no traseiro e mandaram-no embora. Chegando ao palácio, o rei quis ir pessoalmente soltar o seu ministro e pedir-lhe mil perdões pelo que fizera. Mandou, então, que lhe preparassem um bom banho e devolveu-lhe as vestes e as jóias de seu cargo. Em seguida, interpelou ao ministro: - por que o seu deus não o livrou da prisão? Majestade, respondeu o ministro, Ele não me livrou da prisão porque, se eu estivesse em sua companhia, quem ia ser sacrificado, hein? A mim não falta nenhum dedo!...

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