Jornalista e escritor
Éramos felizes e não sabíamos
Semana de 26/01 a 02/02/2008
Brincávamos com coisas simples no nosso tempo de criança: carinhosinhos que fazíamos de carretéis de linha e caixas de fósforos vazias; jogando “doidinho” no meio da rua com bola de meia (as de borracha que existiam eram caras e nem todos os pais podiam dá-las para seus filhos). Aí, o jeito mesmo era surrupiar uma das meias do sapato do “velho”, enchê-la de pano e fazer dela uma “pelota”. Enchíamos o pé com prazer e nem reparávamos na pobreza que nos envolvia; na falta que fazia uma bola de borracha, cheinha, durinha, que repicava no chão e dava condições de belas jogadas. Tinha nada não!... Íamos aturando tudo com naturalidade. Quando não era a brincadeira de “doidinho”, brincávamos de outra coisa; brincávamos de “marido e mulher”; construindo casinhas no quintal com “caibros” feitos de carrapateiras e lá íamos “morar”.
As “mulheres” levavam miúdos de galinha e preparavam o “almoço”. Isso era procedido inocentemente, sem qualquer libidinagem, mesmo porque não sabíamos o que se passava entre os casais de verdade. Não havia maldade nem intenção de sexo. Empinávamos pipa (papagaios); jogávamos botões nas calçadas; íamos “caçar” passarinhos, armados de estilingue (ou peteca) com balas feitas de barro amassado e depois exposto ao sol para secar. Eram mais resistentes que os frutos das carrapateiras com os quais costumávamos fazer “guerrilhas” entre turmas. Para ficar com a mão certeira, abatíamos o beija-flor (que maldade!) e bebíamos do seu sangue. O “matador” fazia um corte no gancho da peteca, para mostrar que era bom de pontaria, pela quantidade de cortes feitos. Na nossa época, cada menino fazia seus próprios brinquedos, já que não havia muitos no mercado.
Brincávamos de “pega”, de jogar peão. Fazíamos nossos peões do galho da goiabeira. Mas só prestava aquele que zunisse na palma da mão, como as rodas de um carro de bois. Lembro-me do meu primeiro peão, feito de goiabeira. O fiz com tanto esmero que logo tive uma excelente oferta de compra: um tostão! Não o vendi. Adquiri mais uma ponteira na feira e vivia me exibindo todo “pabo”, para a meninada. Fazíamos “pernas de pau” para imitar os palhaços de circo. Não tínhamos televisão, rádio e muito menos Internet. Não tínhamos muito com que nos preocupar, a não ser com os deveres da escola. Andávamos a maior parte do tempo descalços, pulando cercas para “roubar” cajus nos sítios alheios, aquelas frutinhas doces como mel, amarelinhas como peito de bem-te-vi. Olhando para tudo isso, depois de passados mais de 60 anos, vemos que éramos felizes e não sabíamos.

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