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sábado, 22 de dezembro de 2007

BEZERRA NETO
Jornalista e escritor
E-mail:
bzneto@gmail.com


A “Velhinha do Juá”

Semana de 03 a 10/11/2007
Ganhou esse nome porque vendia raízes e plantas medicinais. Principalmente, vendia raízes e folhas de ”Juá”, de um tipo de árvore que dá no Nordeste. Segundo ela, servia para curar doenças da pele e outros males. Era uma grande curandeira. Passava todas as semanas, às segundas-feiras (a feira livre local acontecia nos dias de segunda-feira), para negociar o seu produto. Trocava meizinhas por feijão, farinha, café, sal, açúcar e jabá, que era para dar gosto ao feijão. Vivia sozinha, nas brenhas, e já beirava a casa dos oitenta anos de idade. Andava sempre descalça, vestido um tanto surrado e desbotado, de chita estampada, saia batendo em baixo, nos calcanhares. Mijava em pé, abrindo as pernas. Deixava uma poça de mijo no chão. A meninada a chacoteava por isso, mas ela nem ligava. Um dia minha mãe a chamou. Queria um remédio para “cegueira noturna” (eu e meu irmão Bibi sofríamos desse mal há anos, sem poder enxergar à noite) Ela deu raízes e ensinou a fazer o “beberebe”, recomendando como faze-lo: - Vá na feira e peça no açougue um pedaço de figo (fígado). “Tem de pedi pelo amô di Deus, sinão não vai ter serventia. Adispõs, bote o figo pra fervê numa panela de barro vigi (virgem, que ainda não foi usada). Quando tivé cozido dê para os meninos cumê e bebê o cardo. É só. Minha mãe queixou-se: - É só? A senhora me diz para pedir “pelo o amor de Deus” e acha que é pouco? Não posso fazer isso. Posso comprar!... - Num servi, respondeu a “Velha”. Já disse; só servi si pidi pelo “amô di Deus”. E mamãe, não tendo escolha, foi pedir, mesmo que todo o açougue de carnes pertencesse a família: - Miguel, dê-me um pedaço de fígado, “pelo amor de Deus”!... - Ficou maluca, Joaninha?! - Não me pergunte porquê, mas me dê um pedaço de fígado, “pelo amor de Deus!...Eu e meu irmão comemos o fígado e tomamos do caldo. Um purgante! Mas na noite do mesmo dia estávamos curados. Mamãe nos encontrou jogando bola de meia com a meninada debaixo da luz de um poste, já noite alta.

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