.

terça-feira, 29 de abril de 2008

BEZERRA NETO
Jornalista e escritor
E-mail:
bzneto@gmail.com

O ‘Buraco da Zefa’

Semana de 26 a 03/05/08

- Quem, dos boêmios e gastrônomos dos ‘dourado anos’ 60 e 70 – e um pouco mais além do que isso – não se lembra do famoso ‘Buraco da Zefa’, no coração do populoso bairro de Ponta Grossa, onde se servia uma caprichada macarronada e galinha a molho pardo? Melhor dizendo, quem desses não se lembra da grande dama da culinária alagoana, cujo dom de cozinhar e fazer amigos era admiravelmente todo dela? Freqüentei por vários anos o “Cantinho da Zefa” (como ela gostava que fosse chamado) e guardo na lembrança o seu jeitão de ser: mulher de sorriso franco; sorriso aberto – como se diz – com seus dois dentes de ouro à mostra e toda de branco, com seu “Axó” de Oxalá, sendo a mais das encantadoras figuras humanas. Acima de tudo, querida da rapaziada do bairro, patrocinadora e promotora de festinhas populares, através das quais conquistava a todos.
‘Buraco da Zefa’, ou ‘Cantinho da Zefa’, não fazia diferença como era chamado, mas era tão famoso quanto o coqueiro torto – Gogó da Ema – que não resistiu às intempéries do tempo e morreu ante dos anos 60; tão famoso quanto os restaurantes e bares ‘Ostras’ (na Levada), ‘Gaivota’ (em Pajuçara); tão famoso quanto o ‘Zinga Bar’, na praia de Riacho Doce. Todos esses eram freqüentados por turistas, políticos, intelectuais, jornalistas, turistas; por famílias maceioenses, boêmios e gastrônomos, servindo de ponto de encontro para os “famintos” freqüentadores das costumeiras noitadas nos clubes sociais, Festa da Mocidade e festas populares, que se realizavam em várias épocas do ano na Praça da Faculdade de Medicina; nos bairros de Bebedouro, Fernão Velho, Pajuçara, entre outros. O que fazia a diferença (e o que faz mais falta hoje) é o tempero que só a Zefa sabia fazer é a camaradagem daquele tempo, onde todos se conheciam pelos nomes. Senti saudade hoje daquela ‘mulher maravilha’ que enchia o peito de orgulho quando era incumbida de organizar uma festa para as danças folclóricas: “este ano vou ganhar novamente o primeiro lugar pela decoração do Arraial de São João”. O que faz mais falta é não tê-la nos afazeres de sua cozinha da famosa casa da Rua Tiradentes, 128, point da intelectualidade alagoana, políticos e jornalistas, esses vindos das redações dos jornais da época (após o fechamento de páginas): Gazeta, Jornal de Hoje, Jornal de Alagoas e Correio de Maceió, lá para além das duas horas da manhã, com certeza de que podiam deixar mais um ‘pendura’. A Zefa aceitava.

BEZERRA NETO
Jornalista e escritor
E-mail:
bzneto@gmail.com


O menino-índio

Semana de 19 a 26/04/08
Ah, aquele “endiabradozinho’ e renitente brincalhão não me deixava dormir!... Fazia-me cócegas nos solados dos pés, puxava meus cabelos e ‘aprontava’ o quando podia. De quem estou falando? De um indiozinho, de seus quatro para cinco anos, que já não vivia no nosso mundo; pertencia ao mundo dos mortos. Isso mesmo, dos mortos!... Eu tive esse problema durante a infância. Dos oito aos quatorze anos, por onde andasse me deparava com ‘pessoas’ do mundo dos mortos. Elas vinham a mim com a intenção de pedir algo, qualquer que fosse, geralmente para falar com parentes e amigos, com pedidos para que mandassem rezar missa em seu favor; qualquer coisa assim. E passei a ser assediado, usado, e meus pais não gostavam disse, e muito menos eu. Era olhado como menino problemático, de ‘miolo mole’.
Mamãe ainda dava trela a essa ‘maluquice’, aceitando que algumas pessoas da vizinhança viessem procurar informações sobre seus entes queridos. Esses apareciam simplesmente e falavam comigo para que intermediasse uma fala, conversa ou entendimento com os seus. Mas eu só podia fazer isso raramente, por retraimento dos próprios ‘espíritos’. Foi um período dos mais incomuns que eu tive que passar. A convivência com ‘fantasmas’ deixava-me acabrunhado e com aspecto doentio. Tinha pesadelos horendos; caía da cama constantemente. Para que pudesse dormir mais sossegado, meu pai mandou fazer uma cama especial, com grades dos lados. Nela me deitava segurando o dedão do pé de meu irmão, Bibi, que, ao senti-lo puxado, me acordava. Dormíamos virados ao contrário, juntando pés com cabeça.Mas eu não podia dormir um sono tranqüilo, porque logo me sentia importunado pelos novos ‘amigos’. Minha mãe inventou de chamar algumas amigas para fazer um tipo de ‘vigília’; elas contavam estórias de Troncoso, enquanto eu me esparramava no chão de esteira. Meu “amiguinho” aparecia mais pela manhã ou no horário da tarde. Hoje, no dia consagrado ao Índio, lembrei-me pela primeira vez com ternura daquele que me ‘infernizava’ a vida com suas torturas por cócegas, ih, ih, ih!... É possível até mesmo que tenha reencarnado e me deixado em paz. E, se reencarnou, veio na forma de minha sobrinha Eliane, filho do Bibi, hoje casada e mãe de filhos. Durante um período de três meses que passei em Arapiraca, todas as vezes que me aprontava para dormir, ela chegava pequenininha e graciosa, e se aboletava dos meus pés, não me deixando tirar uma soneca. Não havia quem a demovesse dali!...

BEZERRA NETO
Jornalista e escritor
E-mail:
bzneto@gmail.com
“Mestre Touca”

Semana de 12 a 19/04/08
Era exímio fogueteiro, que fabricava fogos de artifícios para os festejos de fim de ano, comícios e também reconhecido mestre de Guerreiro, vindo de Viçosa para Arapiraca. Chegou com a idéia de formar um grupo de ‘figurais’ e montar uma brincadeira, juntando-a ao naipe dos pastoris, cheganças, quilombos, dançadores do coco de roda e outras que são próprias dos autos natalinos da zona rural. O guerreiro, genuinamente alagoano, surgiu na década de 20 do século XX, formado por grupos de cantores e dançadores acompanhados de uma sanfona, tambor, pandeiros, uma clarineta, às vezes de rabeca e reco-reco. Para estudiosos do folclore nordestino se trata de um reisado moderno. Touca, então, formou seu grupo de ‘figurais’ que, arregimentados, se deram a fazer testes e comprovar sua aptidão para a função de dançar esse folguedo.
E o mestre começou à prática dos ensaios num terreiro de chão batido da Rua Boa Vista, que previamente preparou para montar o auto. Os que passassem nos testes iam logo para as naturais medidas dos trajes, dos chapéus de muito brilho de espelhos e lantejoulas, das ‘coroas’ e tiaras de rainhas e reis; das indumentárias de representação do ‘Índio Peri’, do Mestre e contra-Mestres, da ‘Lira’, de Mateus e palhaços, menos do ‘Catolé” – figura excêntrica e extrovertida, que se fazia aparecer revestida de grossa e peluda camada de ‘fios” retirados das palhas de coqueiro. A apresentação do ‘catolé’ fazia divertir a criançada e também os adultos. O guerreiro do mestre Touca estava pronto para se apresentar ao público. Para assistir ao ensaio geral, foram convidadas as mais destacadas pessoas do lugar. Os tocadores entraram e os “dançarinos” já marcavam seus passos característicos da dança guerreira na pista aguada para não levantar poeira. O ‘Boi’ fazia piruetas, os palhaços tentando derrubá-lo pelo ramo, fazendo-o rodopiar como numa corrida de mourão. Tudo perfeito!... Aplausos e mais aplausos. Mas havia algo errado: no meio das palmas surgiram vaias e risadas incômodas. Touca logo se apercebeu do que se tratava: “Catolé’ estava com as ‘coisas’ do lado de fora e não se dera conta do ridículo. Cantando e dançando, para disfarçar, foi até ele. No ritmo, despachou: Tum , Tum, Tum: “Feche a braguilha, ‘Catolé’!... Tum, Tum, Tum, “Feche a braguilha, ‘Catolé’!... E, com o figural não ligava, pensando que estava mesmo ‘abafando’, o mestre resolveu acabar com a sua alegria: deu-lhe um soco certeiro no pau da venta, depois bradou: “feche essa braguilha, ‘fio da peste’!!!...

BEZERRA NETO
Jornalista e escritor
E-mail:
bzneto@gmail.com



“Os selvagens do Coruripe”


Semana de 05 a 12/04/08
Este era o título de um panfleto escrito pelo hoje consagrado escritor e teatrólogo Pedro Onofre, quando ainda era menino, na cidade de Arapiraca. Pedro “Carioca”, como era chamado, por ter vindo do Rio de Janeiro para a “Terra do Fumo”, jogava de goleiro no time do Alto do Cruzeiro, lá pelo final dos anos 50. Era bom goleiro. Certa feita, seu time foi jogar na cidade de Coruripe, venceu a partida por largo escore, mas apanhou no “cacete”; foram cacetadas as tantas sobre as cabeças dos jogadores e dos que os acompanhavam; uma briga feia onde se envolveram todos que estavam no campo de futebol. Os de Arapiraca tiveram que sair às pressas para não “morrer no pau”. Ao chegar em casa, “amassado”, denegrido e com muita raiva, o “Carioca”não contou conversa: pegou a pena e escreveu “Os selvagens do Coruripe, boletim no qual contou toda a infeliz saga daquele domingo, metendo a “lenha” naquele povo.
Com o boletim da lamentável ocorrência debaixo do braço, a “turma” de Pedro, inflamada, distribuía-o entre os feirantes do município que vinham para a Feira de Arapiraca, na segunda. Parava os caminhões de feirantes e distribuía o boletim. Não só distribuía como cobriam de “pau” aqueles que eram reconhecidos como “selvagens”. Coisa dos tempos da juventude; dos tempos que não voltam mais... Outro dia, percorríamos – eu e Pedro Onofre - as zonas de praias de Alagoas fazendo cobertura jornalística para uma grande revista de projeção nacional, quando tivemos que entrar em Coruripe. É lá onde se encontram as mais belas praias, que não poderiam ficar de fora da matéria. Pedro não queria entrar na cidade, com receio de retaliações. – Ora, Pedro, isso já faz muito tempo. Com certeza, ninguém se lembrará mai do acontecido, argumentei. Viajávamos num “jipão” cedido com motorista pela Polícia Militar de Alagoas. Entramos na cidade e, logo passada a primeira curva, paramos em frente a uma casa de sinuca. Pedro, já gordo, só podia ir no bando da frente. Logo foi reconhecido. De dentro da casa, um sujeito apareceu com o taco na mão e gritou: “Os selvagens do Coruripe”!!! Estávamos “fritos”. Lembrei-me logo do Bispo Sardinha, devorado pelos Caetés. Pedro desceu do carro, vermelho que só uma brasa. Quando demos conta, mais de 10 cururipenses estavam rodeados, de tacos em punho. Seguravam-no pela ponteira, de cabo virado. “Praça de guerra”, e o “praça” que dirigia o carro, pulou logo fora, saindo de fininho... Um dos “selvagens” eu o conhecia. Era Aécio Chanchão, lá chamado de “coronel Canchão, corredor de vaquejada. Tudo não passou de brincadeira, e entramos na cachaça durante três dias.

BEZERRA NETO
Jornalista e escritor

Uma jaca como almoço


No Natal de 1978, estávamos ‘lisos’, eu e Sabino Romariz, grande radialista, que depois se tornaria no maior líder de audiência, com seu programa “A Vez do Povo na TV (pela TV Alagoas); foi deputado, com a maior votação de todos os tempos; depois, ainda, nome de expressão da Rádio Nacional de Brasília. Mas estávamos os dois desempregados naquele momento. Sabino, demissionário da Rádio Gazeta (da Rua do Comércio) e eu acabara de deixar um empreendimento cinematográfico que não dera certo (naquela época, além do jornalismo tinha “cabeça inchada” pela Sétima Arte). Do desarrolho, sobrou-me um bom equipamento cinematográfico, que se prestava muito bem ao serviço de reportagens para a TV. Era só filmar com filme reversível de 16 milímetros e colocar no tele-cine para rodar.
Era como as emissoras de TV se saiam, pois não conheciam ainda a câmera filmadora e o “vídeo - tape”, muito menos as filmadoras digitais de hoje. Bom. Aí, tivemos uma idéia salvadora, eu e meu compadre Romariz: saímos para produzir uma série de mensagens, que seriam gravadas com a participação de prefeitos em suas saudações ao futuro governador Guilherme Palmeira, cuja posse estava marcada para o dia 15 de março do ano seguinte. Quase ficamos ricos. Tivemos um Natal “gordo” e, até o dia da posse, não ia faltar trabalho. O carro usado pela “equipe de filmagem” era de Sabino, um Chevrolet com mais de 20 anos de uso, que nem piso no lugar do passageiro tinha. Tive que abrir as pernas, apoiando-as nas partes das ferragens internas, o que não evitava a onda de poeira e lama vinda de baixo.
Velocidade máxima: 60 Km. Nesse esforço, chegamos à Chã do Pilar por volta do meio dia, lisos e com fome. Observando as jaqueiras frutíferas à margem da estrada, fomos até elas. Com os minguados trocados do bolso, compramos uma doce, enorme e apetitosa jaca. Sentamos-nos ao pé da frondosa jaqueira e a almoçamos. Daí a 20 minutos, entravamos bem alimentados na cidade de Junqueiro, depois de São Miguel. O prefeito João José nos recebeu bem na hora de seu almoço. Quis que almoçássemos com ele e não aceitou a desculpa de que já tínhamos “almoçado”. Mesa farta de tudo: carne de sol, de bode, de porco, de veado, de pato e galinha a cabidela; feijão tropeiro e mulatinho; torresmo, a mesa repleta de tudo; tudo do bom e do melhor. – E, como podíamos nos banquetear, se estávamos de barriga cheia?...