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sábado, 22 de dezembro de 2007

BEZERRA NETO
Jornalista e escritor
E-mail:
bzneto@gmail.com

Terra de "cabra ruim"


Semana de 22 a 29/12/2007
Esta quem me contou foi o Lula, meu irmão, quando morava em Vitória do Espírito Santo, encontrando-se de férias em Maceió: Disse-me que um certo pai-de-família da capital capixaba, veio ao Nordeste, tendo permanecido por alguns na cidade de Arapiraca, próspero município deste Estado. Até aí, tudo bem... Mas um dia, chegou num bar e bebeu cervejas além da conta; ficou de “porre” e começou a abusar, dando uma de brabo e deitando falação:
- Esta é uma terra de cabra ruim!... Acho que não vou me demorar muito por aqui, pois é como digo: - “Esta é uma terra de cabra ruim”!...
- O que está dizendo, amigo? – Indagou o dono do bar.
- Estou dizendo que não pretendo me demorar muito nesta terra que só tem cabra ruim, de péssima reputação! A partir daí a coisa “esquentou” e o “pau comeu” nas costas do forasteiro que pretendeu afrontar o povo local.
Os que se encontravam ali deram-lhe uma boa sova; uma boas bofetadas, e o coitado ainda teve que ir para a delegacia de polícia sob a acusação de estava fazendo arruaça, provocando e destratando as pessoas de bem do lugar. Quando acordou da bebedeira, o delegado quis saber o motivo que o levou a desacatar e provocar o povo arapiraquense com tamanha ofensa, chamando o lugar de “terra de cabra ruim”.
- Não ‘seu’ delegado; eu não desacatei ninguém. Deixe-me justificar: o médico que atendeu o meu filho menor, ainda de colo, que estava muito doente e que não queria se alimentar mandou que eu comprasse uma cabra para que dela tirasse leite e desse ao menino. Disse-me ser esse o único remédio que poderia curá-lo do raquitismo.- Então, não contei conversa; viajei de imediato até aqui, porque tomei conhecimento de que as cabras daqui eram excelentes leiteiras e ainda porque em Vitória não existe essa espécie de animal. Realmente, cheguei e vi cabras muito bonitas, de boa aparência, ubres volumosos e tetas bastante salientes. Levei logo umas cinco na esperança de curar o meu filho. Deu tudo errado: as cabras não se acostumaram com o pasto de lá e nunca deram um só pingo de leite. É por isso que eu digo que cabra daqui não presta! Presta?

BEZERRA NETO
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“ O Gado”

Semana de 15 a 22/12/2007
O gado mugiu a noite inteira, quando seu dono morreu. Foi um lamento de fazer dó e causar espanto. Toda a vizinhança se inquietou, procurando saber o que estava acontecendo; o por quê de todo aquele murmúrio no meio dos animais.
- Será que o “coronel” Luiz Pereira Lima passou deste para o outro mundo? Se foi, que Deus o tenha! – disse alguém.
Pela manhã cedinho, soube-se de tudo: o chefe-político mais respeito da região tinha mesmo morrido naquela noite. Arapiraca, lugar onde ele exercia maior influência, estava agora chorando o seu caudilho; aquele era o mandante de tudo. Seus aliados, entristecidas, lamentavam a “perda irreparável do amigo do povo”.
Meu pai, embora tivesse sido perseguido pela política do “poderoso chefão”, na sua inabalável fé cristã, arrumou-se para acompanhar ao enterro. Não me comovi ao tanto, talvez porque minha família sofreu muito, depois de um rompimento político havido entre os dois. Intimamente, até censurei aquele seu gesto, livre de qualquer ranço contra o homem que o colocou na falência; achava que meu “velho” até devia dar-se por satisfeito, vingado, pelo que sofrera por causa da desavença que teve com o chefe-político. Naquela época. Era apenas um rapazola revoltado. Também pudera! Vi minha família cair em desgraça econômica e financeira, e tudo por culpa do “coronel” Luiz Pereira Lima. Dei de mão de uma espingarda velha de meu pai e sai para caçar codorniz, levando comigo o cão de caça Pery, bom de caça e bom amigo (literalmente, era o meu melhor amigo). Não queria pensar em mais nada.
Naquele dia e nos dois subseqüentes, não haveria aula no colégio, por causa do luto oficial decretado pela Câmara de Vereadores. Entramos no mato e logo o cachorro ‘levantou’ uma codorniz em vôo rasteiro. Fiz pontaria, e atirei: peeeiii! A ave caiu. O “peneiro” cobriu uma moita. Mas, quando me agacho para apanhá-la, veio o espanto: ela arrancou vôo em meio ao folharal vindo pra cima de mim, caindo em seguida noutro lugar de folhas. Novamente, preparei a espingarda. E disparei outro tiro: peeeiii! Novo “peneiro”, e nada; ela continuava vivinha da silva. - Que diacho?! Só tinha levado dois cartuchos!... Lembrei-me do morto e sai correndo por entre macambiras, xiquexiques, urtigas, tomando rumo diferente ao de casa. Perdi-me no mato, com cachorro e tudo!

BEZERRA NETO
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O sanhaço

Semana de 08 a 15/12 / 2007
Meu avô trabalhava para a estrada de ferro (Rede Ferroviária) e estava em Palmeira dos Índios. Nossa família morava em Arapiraca, naquela época, quase um dia de viagem entre uma cidade e a outra. Eu era muito apegado a ele (tínhamos, inclusive, o mesmo nome). Chamava-o de “padrinho”, por ser seu afilhado, e não de “vovô”, como meus irmãos. Um dia, quando baleei um sanhaçu (ou sanhaço) que estava no mamoeiro do quintal de casa – delimitado por uma cerca de madeira, como todas dali eram – ele prontamente recriminou o meu procedimento, dizendo que devia me envergonhar de ter praticado aquela maldade contra um bichinho indefeso, ‘uma criaturinha de Deus’, uma avizinha tão mansa... Ralhou comigo como nunca havia feito!E não me deu tempo nem para choramingar por causa do “refrega”. Senti-me realmente envergonhado do que fiz, principalmente porque fui censurado justamente pela pessoa que mais amava neste mundo. Ordenou-me que fosse correndo apanhar linha e alguns palitos de bambu para que ele pudesse encanar a perninha do pássaro azul, dos que costumeiramente vinha comer mamão. Mas do que depressa, apanhei o retrós de linha da máquina de costura de minha mãe e, como havia muitas talas de bambu espalhadas pelo chão da casa vizinha, que fazia “pau-de-picolé” para as sorveterias da cidade,. apanhei uns e voltei a encontrar com meu avô, no lugar em que o deixei, acocorado sobre os calcanhares e fumando seu cigarro de palha. Ele segurava o bichinho, acariciando-o e até conversando com este, enquanto o sanhaçu macho esgoelava-se em pios graves, sobrevoando raso por sobre a sua cabeça no maior desespero. – “Tadinho!... Pera aí que eu já vou lhe devolver a seu mundo e ao maridinho que está agoniado e enfezado. Pronto, agora está tudo bem!... Voe! Voe!.” Estas foram as últimas palavras que ouvi de meu avô... Minha mão, sua ilha única, quando contei-lhe sobre o acontecido chorou muito. Mandou chamar papai no trabalho (ele tinha pedreiras e vendia pedras para várias prefeituras da redondeza) e os dois seguiram imediatamente para Palmeira dos Índios, onde se encontrava meu avô e padrinho. Ele estava morrendo...

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O grande inventor

Semana de 22 a 29/09 / 2007
O homem viu-se diante de um mundo de coisas e maravilhou-se. Quis ver mais coisas e andou para lá e para cá. Fez sua morada nesse mundo, carregando todos os pertences às costas. Pensou num jeito de melhorar isso, e inventou o carro de bois, que ia zunindo e zunindo, subindo e descendo ladeiras. A nova descoberta foi de grande valia para melhorar sua vida, pois agora não precisava carregar tudo às costas, já que tinha o carro de bois. Porém, ainda não estava satisfeito com o veículo grosseiro que inventara e quis algo melhor. Fez uma canoa e pôs-se a singrar as águas do rio, indo para cima e para baixo, e na terra apossou-se do cavalo. E, depois que o domou, andava nele em grandes galopes, percorrendo os campos com mais desenvoltura. Em seguida à conquista do belo horse e da canoa, inventou as bicicletas, motociclos e charretes, mas ainda não estava satisfeito. Queria ele sair voando por aí como um pássaro. Então, muniu-se de asas, colando-as junto ao corpo com cera da abelha. Mas veio o sol e derreteu a cera, fazendo-o cair. Pensando em novas idéias, inventou o dinheiro com o qual comprava e vendia tudo. Da canoa feita do miolo da velha carnaubeira, evolucionou o madeiro em moderno navio, e do lento progresso de mandar mensagens de um lugar para outro por meio de pombos-correios, evoluiu o telégrafo sem fio. Certo dia, o homem sentou-se debaixo de uma frondosa árvore para descansar, pois já havia feito de tudo. Naquele momento, um fruto da árvore despencou e bateu-lhe na cabeça. Incrível, ele acabara de inventar a lei da gravidade! Esse acontecimento viria revolucionar o mundo e, daí em diante, foi fácil para ele inventar um mundão de coisas: avião, automóveis, televisão, telefone, foguete para ir à Lua, internet, celular, e milhões e milhões de novidades. E não parou de progredir; de inventar e aperfeiçoar novos métodos pelos quais ajudaria à humanidade. Este, que já fez tanto no mundo em que vivia, ganhando poder, glória e fama pessoal, só precisava agora meditar profundamente sobre a importância de irmanar-se a outros homens, colaborando para que a harmonia, o amor e paz sempre existam no mundo, pois somente assim ele estará operando numa obra voltada para si mesmo e para Deus. – Sócrates disse: “... torna-se impossível o homem conhecer o mundo ao redor dele, acima dele, sem conhecer o mundo dentro dele”.

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Zeppelin

Semana de 29/09 a 06/10/2007
Na década de 50 ainda se falava num certo Zeppelin, balão gigante semelhante a um grande charuto, como uma novidade. Foi a maior invenção do homem até então vista, uma criação alemã destinada ao transporte de passageiros. Falava-se muito a respeito dessa engenhoca voadora, e essa história foi passando de pai para filho, de forma que até mesmo as gerações de hoje já ouviram falar sobre o dirigível Zeppelin. Minha mãe contava que vira ele passar cruzando os céus emitindo um som de “tum-dum-tum-dum”, como baticum de tambor surdo. Certa feita, já em 1969, o folclorista Pedro Teixeira me convidou para fazer uma matéria sobre um possível campo de pouso alemão que existiu durante a Segunda Grande Guerra Mundial numa serra entre Boca da Mata e Viçosa. Seu cume tinha formato plano e parecia ter sido betumado, como uma pista de pouso e decolagem mesmo, podendo ser zona de abastecimento para o Zeppelin – disse-me. Fazia disso um “segredo”, com receio de ser mal interpretado. Infelizmente ele morreu e eu não pude satisfazer esse seu desejo. Dois de julho de 1900; esta data histórica para a aviação mundial marca o vôo inaugural do dirigível Zeppelin-LP-1, uma aeronave tipo balão, impulsionada por dois pequenos motores. Seu inventor, o conde e general alemão Ferdinand Adolf Heirinch Graf von Zeppelin (1839 -1917), conseguiu sobrevoar o lago Constanza, na fronteira da Alemanha com a Suíça. O conde gastara uma fortuna na construção desse monstrengo voador, de estrutura rígida e ovóide, parecendo um grande ovo mesmo. Entretanto, o tecido que cobria a estrutura de alumínio do balão se rompeu no pouso, acabando com a festa.
O milionário já estava na bancarrota, por causa dos gastos com suas invenções, mas não se intimidou com o fracasso de sua experiência e, em 1908, voltou a ganhar os ares da fama com o LZ-4, ao cruzar os Alpes, numa viagem de 12 horas sem escalas. Somente a partir daí, Zeppelin passou a ser financiado em suas pesquisas pelo governo alemão. Em 1910, ele inaugurou linhas regulares na Europa, mas só em 1928 (onze anos após sua morte) o Zeppelin ficou pronto e partiu para uma volta ao mundo. Tinha 245 metros de comprimento e era sustentado no ar por 200 mil metros cúbicos de
hidrogênio, tendo sido esse o maior dirigível da história. No dia 22 de maio de 1930, quando um desses grandes dirigíveis chegou a Recife pela primeira vez, o fato teve tamanha repercussão que Estácio Coimbra, então governador de Pernambuco, decretou feriado estadual. O “peixe-voador” pousou no Campo dos Dirigíveis do Jiquiá.

BEZERRA NETO
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O trem de ferro

Semana de 06 a 13/10/2007
O levante militar de 64 o retirou dos trilhos, deixando a pobreza sem o seu mais adequado meio de transporte. As velhas estações, como que ainda esperando a sua volta, permanecem nas cidades como lembrança – retratos vivos do passado; verdadeiros cartões postais são elas, ao lado do quadro Estação de Ferro Central do Brasil, de Tarsila Amaral, pintura evocada no poema de Manoel Bandeira – Trem de Ferro. Todos nós, interioranos da geração dos anos sessenta, vimos de algum lugar o trem passar a correr sobre trilhos, para lá e para cá, soltando fumaça, silvando e matraqueando: “café com pão, café com pão, café com pão”. E lá se ia o trem de ferro na sua costumeira e mansa velocidade, mas contundente: - “Vou danado pra Catende, vou danado pra Catende/ vou danado pra Catende/ com vontade de chegar”... “O sino bate, o condutor apita o apito, solta o trem de ferro um grito, põe-se logo a caminhar”. O maquinista acelera; o foguista bota mais fogo na fornalha. E lá vem o trem de volta. O governador Teotonio Vilela Filho vira maquinista e vem trazendo o trem de volta; Luciano Barbosa é foguista e bota lenha na fornalha, bota mais fogo na máquina, e o trem é conduzido de volta às Alagoas, às terras de Arapiraca. Haverá muito progresso e o produtor rural vai poder escoar a sua produção de milho, feijão... Leio o poema de Bandeira, Trem de Ferro, onde ele aborda uma temática muito comum à vida nordestina: “o trem é mais que uma máquina e símbolo de modernidade na esfera social; um simples meio de locomoção. É esperança de vida melhor”. Reflito: o progresso vem de trem. Quando não se tinha televisão, via-se o mundo através da janela do trem. O foguista bota fogo na fornalha/ a fumaça voa/ o homem pega o trem e voa na fumaça. Corre um mundão de léguas e volta ao mesmo lugar. – Quanta saudade!... Acho até que todos nós – saudosistas – de certa forma sempre estivemos esperando o retorno aos trilhos do trem de ferro de nossa infância... nossa lembrança. O trem de ferro vem com vontade de chegar. Agora sim/ Café com pão/ Agora sim/ Voa, fumaça/ Bota fogo na fornalha, seu foguista/ Ai seu maquinista / Não deixa o trem descarrilar! Foge, bicho, Foge, povo/ Vai depressa ver o trem passar... – Penso: fui menino vivendo os dias e as horas de saída e chegada do trem à estação, o movimento da gente que chegava e da gente que embarcava. Guardo isso na lembrança e acho que, quando o trem apitar novamente na curva, voltando, eu estarei lá para matar a saudade.

BEZERRA NETO
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O Porco

Semana de 13 a 20/10/2007
Um causo: era noite de “Santa Missão” em Arapiraca, para onde acorreram multidões vindas de todos os arredores e das cidades circunvizinhas, como Limoeiro de Anadia, Marimbondo, Belém, Palmeira dos Índios, Igaci, Santana do Ipanema, Dois Riachos, entre outras. O pátio que ficava atrás da Igreja Matriz, estava superlotado, milhares de pessoas se espalhando pela hoje Praça Marques da Silva, passando pelo cemitério velho (onde hoje é construída a Igreja Concatedral Nossa Senhora do Bom Conselho, no Largo Dom Fernandes Gomes – Centro na Rua 30 de Outubro e adjacências. Não havia mais onde coubesse um pé de pessoa. Frei Damião pregava aos fiéis, expulsava demônios, condenava os amancebados e pedia aos céus que mandasse chover em cima das plantações.
O plantio de fumo e de outras lavouras necessitavam de chuva porque a terra estava num secume de dá pena... Todos oravam com o “santo do Nordeste” pedindo para a seca se retirar; pediam e pediam, numa lamúria só... Minhas primas Maura, Marinete, Zezé e Neninha estavam atrasadas e, por conseguinte, eu também, que devia acompanhá-las à Santa Missão. Todos nós já estávamos prontos, sentados enquanto aguardava Zezé – a mais vaidosa da turma – se trocar, botar pó de arroz coração e ruge no rosto, avivando as sobrancelhas com lápis molhado na ponta na língua... Enquanto isso, no quintal da casa, meus primos Miguel, Adalberto e Deló ajudavam tio José a pelar um porco, jogando sobre ele água fervente. Este fora abatido e colocado em um bando de tiras, para ser pelado.
Já haviam feito a pelação um lado, da cabeça aos pés, ele lá esticado e mortinho da silva. Para virar o porco, para que pelassem a outra banda, Deló e Miguel pegaram na parte da frente, enquanto tio José e Adalberto seguraram o animal pelos pés traseiros. Mas, ao tentarem virar o “barrão” - que pesava mais de 100 quilos – todos foram surpreendidos com o despertar do animal. De supetão, ele pôs-se a correr desembestado porta afora, causando o espanto de todos. Corria em debandada ao aglomerado de gente, gritando e rodopiando. Maura, com seu elegante vestido, não contou conversa: saiu no encalço do danado, pega aqui, pega acolá, em meio às risadas e gargalhadas da turba que se desarrumava à passagem dos dois valentes. Maura não se incomodou de estar pagando aquele mico, só queria recuperar o suíno, trazendo-o de volta ao “matadouro”. E foi derrubá-lo já próximo ao palanque, onde estava Frei Damião rodeado de pessoas ilustres da cidade. Ela escanchou-se no bicho, prendeu-o pelas orelhas e esperou os irmãos chegar para levá-lo amarrado. Não precisa dizer que a “Missão” ali acabou!

BEZERRA NETO
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O Sputnik

Semana de 20 a 27/10/2007
Os primeiros passos em direção à conquista espacial foram dados com o lançamento, há 50 anos, do primeiro satélite artificial da Terra, o Sputnik. A Nasa (Agência Espacial Americana) e a ESA (Agência Espacial Européia) bradaram para todos os cantos a grande novidade; a corrida espacial acontecendo a partir do Sputnik. Numa conferência na Academia Russa de Ciência, o diretor da Nasa, Michael Griffin, afiançou: "O Sputnik protagonizou um acontecimento sem precedentes na história da humanidade e, em nosso caso, deu um forte impulso ao programa espacial dos Estados Unidos, pois sem ele não haveria a Apolo". O satélite subiu ao espaço em 04 de outubro de 1957 e, um mês depois, o primeiro ser vivo fez sua viagem pelo espaço: a cadela Laika. Foi um “deus nos acuda” de tanta falação!... O primeiro vôo de um ser humano ao espaço só aconteceu em 12 de abril de 1961 – o russo Yuri Gagarin, na nave Vostok-1, seis anos depois do Sputnik. Griffin veio destacar para os acadêmicos russos que a URSS foi a primeira a colocar em órbita uma nave espacial com dois e depois com três cosmonautas, realizando a primeira viagem espacial, com Alexei Leonov no comando da nave Vosjod-3, em março de 1965. E para Jean-Jacques Dordain, diretor-geral da ESA, “o lançamento do Sputnik, uma esfera de alumínio polido de 83 quilos, que sobrevoava a Terra a uma altura de mil quilômetros e emitindo sinais, mudou o mundo". O Sputnik abriu uma nova janela para o mundo, realmente.
Minha meninice, eu a curti atento a tudo que se falava pelo rádio (a televisão já havia chegado ao Brasil, mas não no interior onde morava com meus pais) a respeito do Sputnik. Tinha 11 anos, então, idade suficiente para que guardasse boa impressão do mundo daquela época, onde os homens ainda sonhavam com o progresso da humanidade; não era como hoje, onde todos ou quase todos só pensam em obter sucesso e riqueza pessoais. Caminhamos nos dias atuais todos assim, numa grande e ambiciosa jornada de conquistas que, no final verificamos que é inglória, porque é guiada pelo egoísmo e pela ambição desenfreada que nos arrasta para abismos infindáveis, havendo nisso completo alheamento às coisas do espírito e de Deus.

BEZERRA NETO
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O Circo

Semana de 27/10 a 03/11/2007
A alegria da garotada era sem dúvida o Circo, seus malabaristas, palhaços e o picadeiro, onde aconteciam as principais cenas do show circense – as piadas, os malabares, os saltos ornamentais, o equilíbrio em cordas, em rodas, em cubos; trapézios, as danças de fitas; cavalos amestrados se exibindo, ao dorso lindas artistas de pernas “torneadas”, que enchiam de enlevos as cabeças de pequenos e grandes numa ânsia só; só vendo para crer os olhares pecadores dos meninos prestes à primeira comunhão, as lambidas dos lábios de algodão doce, flocos de pipocas como se fossem tetas arrancadas debaixo de lindos corpetes de lingeries, acesos, que despertavam à imaginação, à volúpia. Às vezes eram de lycra preta, com detalhes em tule bordado, sem alças que impedissem o “desnudo” de certos olhares. Ah, circos daquela infância! – Nerino, Garcia, Trindade, Orlando Orfei – e tantos outros. Todos passavam em minha cidade e eu os guardo ainda na memória, principalmente o Nerino, o mais esperado dos meus dias. A lembrança do palhaço Picolino me vem sempre. Vejo-o dentro de sua casaca grande e preta, colarinho grande, calça com suspensório, chapéu coco e sapatos longos. Toda a meninada o conhecia pelo nome, brincava com ele e o amava. Um cativante conquistador de platéias, era o Picolino!... Essas lembranças me vêm por nada; estão elas na cabeça e no andar de longos anos; dias espiados através da janela do trem de ida e de volta, de vez enquanto uma parada na próxima estação, uma descida rápida e um pouco de descanso, só para refazer a coragem de voltar a ser menino e ajudar a pensar ainda que continuo um admirador de circo.
Ele chegava e ia logo montando a sua grande lona. Era um passatempo bom, depois da escola. Permanecia ali horas e horas vendo os operários levantar os mastros, na montagem de tudo, o picadeiro, os camarotes, o “poleiro” e as grandes gaiolas dos animais. Ligava-me nisso... Uma vez fui puxado pelo braço quando acompanhava o palhaço “catita” montado de costas na garupa de um jumento, anunciando a atração da noite. Era meu pai, que quase me bateu pelo atrevimento. O palhaço ia à frente e a garotada atrás, respondendo aos seus apelos propagandistas: “ô, zabelê cantô no mato!...” E os meninos respondiam a uma só voz: “tôco cru pegando fogo/ ô, zabelê cantô no mato.../ tôco cru pegando fogo/... E assim ia a caravana pelas ruas. No final, cada um dos meninos dava ao palhaço o braço, para ser carimbado. Isso valia uma entrada.

BEZERRA NETO
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A “Velhinha do Juá”

Semana de 03 a 10/11/2007
Ganhou esse nome porque vendia raízes e plantas medicinais. Principalmente, vendia raízes e folhas de ”Juá”, de um tipo de árvore que dá no Nordeste. Segundo ela, servia para curar doenças da pele e outros males. Era uma grande curandeira. Passava todas as semanas, às segundas-feiras (a feira livre local acontecia nos dias de segunda-feira), para negociar o seu produto. Trocava meizinhas por feijão, farinha, café, sal, açúcar e jabá, que era para dar gosto ao feijão. Vivia sozinha, nas brenhas, e já beirava a casa dos oitenta anos de idade. Andava sempre descalça, vestido um tanto surrado e desbotado, de chita estampada, saia batendo em baixo, nos calcanhares. Mijava em pé, abrindo as pernas. Deixava uma poça de mijo no chão. A meninada a chacoteava por isso, mas ela nem ligava. Um dia minha mãe a chamou. Queria um remédio para “cegueira noturna” (eu e meu irmão Bibi sofríamos desse mal há anos, sem poder enxergar à noite) Ela deu raízes e ensinou a fazer o “beberebe”, recomendando como faze-lo: - Vá na feira e peça no açougue um pedaço de figo (fígado). “Tem de pedi pelo amô di Deus, sinão não vai ter serventia. Adispõs, bote o figo pra fervê numa panela de barro vigi (virgem, que ainda não foi usada). Quando tivé cozido dê para os meninos cumê e bebê o cardo. É só. Minha mãe queixou-se: - É só? A senhora me diz para pedir “pelo o amor de Deus” e acha que é pouco? Não posso fazer isso. Posso comprar!... - Num servi, respondeu a “Velha”. Já disse; só servi si pidi pelo “amô di Deus”. E mamãe, não tendo escolha, foi pedir, mesmo que todo o açougue de carnes pertencesse a família: - Miguel, dê-me um pedaço de fígado, “pelo amor de Deus”!... - Ficou maluca, Joaninha?! - Não me pergunte porquê, mas me dê um pedaço de fígado, “pelo amor de Deus!...Eu e meu irmão comemos o fígado e tomamos do caldo. Um purgante! Mas na noite do mesmo dia estávamos curados. Mamãe nos encontrou jogando bola de meia com a meninada debaixo da luz de um poste, já noite alta.

BEZERRA NETO
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O Retrato



Semana de 24/11 a 01/12/2007

Em 68 tentei entrar para o comércio, coisa que não deu certo. Constatei logo que não possuía os requisitos necessários a um homem de negócios, e afastei-me do ramo. Mas foi por essa época que tomei parte numa passagem da vida muito interessante: uma cliente da minha loja não atendia os avisos de cobrança, embora estivesse devendo todas as duplicatas de sua compra a crédito. Depois de tentativas várias, através do pessoal de cobrança, resolvi eu mesmo entra em ação e tentar recuperar o que já parecia perdido. Fui, então, à residência dessa senhora e em três oportunidades, não a encontrava em casa; só encontrava uma anciã que me dizia ser sogra da dona da casa. Esta, recebia-me muito bem, convidando-me a sentar e conversar com ela numa saleta bem arrumada com bom gosto no átrio de entrada da casa.Conversamos bastante em todas as três vezes que fui à sua casa. Ela esmerava-se ao falar do filho, um coronel reformado de grande prestígio; falava sobre os netos, que já freqüentavam a universidade; falava sobre coisas familiares, como toda mãe e avó costumam falar dos seus. Acho que ela entendia a razão de minhas constantes visitas, mas nunca falamos sobre esse assunto. Numa terceira e última vez que estive na casa de minha cliente, encontrei o coronel em casa e relatei a ele o meu problema. O homem pediu muitas desculpas pelo comportamento da mulher e quis logo saldar a dívida familiar. Estava meio curvado sobre um móvel da sala principal preenchendo o cheque no valor total da dívida de sua esposa, quando perguntei sobre sua mãe, a bondosa velhinha que me atendia sempre das outras vezes.O homem parou de preencher o cheque e, com certo espanto estampado rosto, indagou-me:- O senhor a conhecia? Fitou-me!- Sim, fizemos uma boa amizade nas vezes que estive aqui. - respondi.Ele parou por alguns instantes. Voltou a preencher o cheque e o trouxe para mim. Agiu como se quisesse revelar algo; pediu-me para o esperar enquanto ia buscar uma coisa no seu quarto de dormir. Voltando, trouxe um quadro com o retrato de sua genitora. Eu a reconheci de imediato.- Foi com esta senhora que conversou? Aqui, nas vezes em que veio à minha casa?- Sim! Aconteceu-lhe alguma coisa?- Não. É que ela já se foi deste mundo faz nove anos!...

BEZERRA NETO
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O Retrato

Semana de 24/11 a 01/12/2007
Em 68 tentei entrar para o comércio, coisa que não deu certo. Constatei logo que não possuía os requisitos necessários a um homem de negócios, e afastei-me do ramo. Mas foi por essa época que tomei parte numa passagem da vida muito interessante: uma cliente da minha loja não atendia os avisos de cobrança, embora estivesse devendo todas as duplicatas de sua compra a crédito. Depois de tentativas várias, através do pessoal de cobrança, resolvi eu mesmo entra em ação e tentar recuperar o que já parecia perdido. Fui, então, à residência dessa senhora e em três oportunidades, não a encontrava em casa; só encontrava uma anciã que me dizia ser sogra da dona da casa. Esta, recebia-me muito bem, convidando-me a sentar e conversar com ela numa saleta bem arrumada com bom gosto no átrio de entrada da casa.Conversamos bastante em todas as três vezes que fui à sua casa. Ela esmerava-se ao falar do filho, um coronel reformado de grande prestígio; falava sobre os netos, que já freqüentavam a universidade; falava sobre coisas familiares, como toda mãe e avó costumam falar dos seus. Acho que ela entendia a razão de minhas constantes visitas, mas nunca falamos sobre esse assunto. Numa terceira e última vez que estive na casa de minha cliente, encontrei o coronel em casa e relatei a ele o meu problema. O homem pediu muitas desculpas pelo comportamento da mulher e quis logo saldar a dívida familiar. Estava meio curvado sobre um móvel da sala principal preenchendo o cheque no valor total da dívida de sua esposa, quando perguntei sobre sua mãe, a bondosa velhinha que me atendia sempre das outras vezes.O homem parou de preencher o cheque e, com certo espanto estampado rosto, indagou-me:- O senhor a conhecia? Fitou-me!- Sim, fizemos uma boa amizade nas vezes que estive aqui. - respondi.Ele parou por alguns instantes. Voltou a preencher o cheque e o trouxe para mim. Agiu como se quisesse revelar algo; pediu-me para o esperar enquanto ia buscar uma coisa no seu quarto de dormir. Voltando, trouxe um quadro com o retrato de sua genitora. Eu a reconheci de imediato.- Foi com esta senhora que conversou? Aqui, nas vezes em que veio à minha casa?- Sim! Aconteceu-lhe alguma coisa?- Não. É que ela já se foi deste mundo faz nove anos!...

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Encontro com o insólito

Semana de 10 a 17/11/2007
Aconteceu durante minha infância e até hoje o fato que vou expor permanece vivo na lembrança dos meus treze para quatorze anos, quando morava com minha família em Arapiraca. Era tarde de sol ameno e eu passava pela fonte d’água doce onde as mulheres costumavam encher seus potes, latas e bacias, levando-os para casa na cabeça. Seguia eu em direção ao campo de futebol do Baixão, bairro um tanto afastado de onde morava: Cacimbas de Baixo, ao lado do “Açude do Governo”. Foi aí que vi um homem montando seu puro sangue (o cavalo mais belo que meus olhos já viram). Imaginei logo que desejavam beber daquela fonte de água cristalina e fria, guardada pelas sombras que davam os frondosos cajueiros em redor. Dava para sentir isso pela freqüência com que o animal batia com um dos cascos dianteiros sobre o chão molhado pela água excedida da barreira da fonte, que derramava.
Pareciam ter vindo de um longo trote, pois o cavalo guardava suor e espumava pelos cantos da boca; suados estavam os dois (cavaleiro e seu troteante horse), ambos parecendo viajantes um tanto exaustos de uma longa viagem, pelo que aparentavam. Os espécimes mais bonitos que podiam existir! – pensei antes de a eles me dirigir para saber se realmente precisavam de ajuda. E que cavalo!... Arreios de prata (sela e arreios eram ornados de um metal reluzente, que devia ser de prata), um rico arranjo de enfeites bem distribuídos... O homem nem se fala!... Talvez um Lorde, vestindo finíssimo terno de linho “pele de ovo”, impecavelmente bem acabado; uma roupa bem cinturada que lhe caía muito bem. Suas botas, bem engraxadas, iam até à altura próxima dos joelhos; tinham brilho de graxa fresca e, talvez por isso, não pretendesse sujá-las na lama, ao apear-se de sua montaria.
O homem permanecia montado, enquanto controlava as rédeas do animal, forçando-o a não tomar daquela água que se derramava das beiras da fonte, indo aos seus cascos, que refregavam até fazer lama. Aproximei-me dos dois: - Deseja água para o cavalo? – perguntei ao cavaleiro. Ele meneou a cabeça de fino chapéu de palhinha, assentindo. Então, apanhei uma cuia que estava à beira da fonte (as apanhadeiras de água costumavam deixar algumas num canto) e a enchi. A água era tão cristalina que dava para ver sobre ela refletida a figura dos dois estranhos; dava para vê-los belos em meio aos arvoredos em redor, bem iluminados pela luz do sol daquela tarde. Que lindo quadro!... Mas, quando me levantei com a água, voltando-me, eis que não havia alma viva ali por perto; nem homem nem cavalo. Só os reencontrei vinte anos depois... Mas essa é uma outra história, que espero contar noutra oportunidade.

BEZERRA NETO
Jornalista e escritor
E-mail:
bzneto@gmail.com

O segundo encontro

Semana de 17 a 24/11/2007
Como prometi, volto a falar sobre o Cavaleiro da fonte: em 1964, rodei um filme-documentário sobre a vida de Delmiro Gouveia. Foi nessa oportunidade que tive meu segundo encontro com o insólito (lembram-se do primeiro artigo sobre esse tema?). Depois de mais de vinte anos, ele reapareceu, e salvou-me de morte certa. – Que nome guardaria ele em seu misterioso designo? Anjo da guarda? Cavaleiro do destino? Eu o chamarei de meu Salvador. E peço a ele perdão por contar mais este trecho da minha vida ligada às suas aparições. A equipe de filmagem estava ansiosa para deixar a cidade de Delmiro Gouveia, no Algo Sertão alagoano, pois já havíamos terminado todo o trabalho ali; o filme estava pronto para receber os serviços de laboratório e ser exibido nas telas, mas eu tinha que ser o teimoso de sempre!Teimei em fazer tomadas de uma certa gruta onde se escondia o cangaceiro Lampião, nas ribanceiras do rio São Francisco, um lugar de difícil acesso, próximo à antiga usina hidrelétrica (a primeira do Nordeste) que o pioneirismo de Delmiro implantou na região sertaneja para fazer movimentar sua fábrica de linhas. A esse lugar só se podia ir descendo por uma velha escada espiral de ferro (com centenas de degraus), que não oferecia segurança alguma. Fui avisado disto, mas não dei importância às apelações dos amigos fazendo-me ver o grande perigo que representava essa minha teimosia. Preparei-me para descer a velha escada, apesar de todos os protestos. Estava amarrado a cordas e sentia-me seguro, pronto para iniciar a descida até à margem do rio. A câmara de filmagem também estava bem amarrada e segura, como fazia crer.- Pronto? – perguntei à equipe. Pronto! – respondeu-me esta. Mas, quando coloquei os pés sobre o primeiro degrau, eis que nesse momento, senti sobre meu ombro uma mão forte. Virei a cabeça sobre o ombro para ver quem era. Ela ele, o Cavaleiro da fonte, o mesmo da minha visão de adolescente. Não o tinha esquecido. Ele fez sinal meneando a cabeça avisando-me de que não devia descer àquela fundura. Olhava-me fixo, como se fosse uma repreenda. Num olhar, vi também o seu belo cavalo amarrado a uma argola de meio-fio, na calçada que completava o piso de um recanto próximo à guarita de acesso. Obedeci e retirei de imediato os pés da escada. “Botei o rabo entre as pernas” e agüentei a galhofa do pessoal. Três dias depois a escada de ferro, já muito velha, ruiu de cima a baixo, tomada pela ferrugem. Li na primeira página do Jornal de Alagoas.

BEZERRA NETO
Jornalista e escritor
E-mail:
bzneto@gmail.com

O rezador e as cobras

Semana de 01 a 08/12/2007
Causo - O rezador foi chamado para fazer uma “limpeza” numa pequena fazenda onde seu proprietário, além da plantação de várias espécies de legumes, milho e feijão, que cultivava, criava também algumas cabeças de gado e ovelhas. Mas havia tempo, ele vivia se queixando da perda de alguns animais, devido à presença de cobras em seu terreno. Eram muitas, as cobras e todo santo dia morria uma rês ou mesmo uma cabra ou cabrito mordidos por cobras venenosas. Calado, o velho rezador ouviu todas as queixas e explicações daquele proprietário, querendo se inteirar do problema que o afligia. Depois aprontou-se para rezar um reza apropriada para a ocasião; benzeu-se e acendeu um cigarro de palha, tirando boas baforadas. Depois, acocorou-se próximo ao mourão da cancela, e tranqüilizou o infortunado fazendeiro.- Não vai ser difícil de fazer – disse. Mas primeiro vai me prometer que vai dar uma de suas rezes a Santo Antonio, para ser leiloada na novena.- Dou! Dou mais de uma! E dou para o senhor também, quantas forem preciso!- Não; uma é bastante. Pegue uma, depois faça doação aos noveneiros do santo para ajudar na construção de sua igreja. Para mim não quero nada!- Como quiser – consentiu o homem.Nesse ponto, o velho se levantou de onde estava e deu três assobios chamando as cobras. Esperou pelas ditas fumando ainda o resto de seu cigarro de palha. Daí para frente foi um desfilar de cobras vindo em direção da cancela de entrada da fazenda; vinhas enfileiradas pelo caminho que dava até a casa grande.Lá vêm as bichinhas – disse calmamente o rezador, ante o olhar estupefato do dono da propriedade e de alguns presentes. O homem quis correr para o alpendre da casa, onde estavam a mulher e os filhos, assustados com o que viam; mas o rezador o impediu, tranqüilizando-o.- Não se avexe!... Elas não lhes causarão nenhum mal. Eu as tenho debaixo de reza. Fique tranqüilo que nada de ruim vai acontecer. E as cobras, de todos os tamanhos, vinham morrer aos seus pés. Ele as pegava uma por uma cravando os dedos polegar e indicador sobre o pescoço, abrindo-lhes a boca. Depois cuspia um cuspe salivado do gosto do tabaco tragado e as serpentes estrebuchavam no chão, mortas. Este é mais um dos causos que conto e que aconteceram de verdade.