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terça-feira, 29 de abril de 2008

BEZERRA NETO
Jornalista e escritor
E-mail:
bzneto@gmail.com


O menino-índio

Semana de 19 a 26/04/08
Ah, aquele “endiabradozinho’ e renitente brincalhão não me deixava dormir!... Fazia-me cócegas nos solados dos pés, puxava meus cabelos e ‘aprontava’ o quando podia. De quem estou falando? De um indiozinho, de seus quatro para cinco anos, que já não vivia no nosso mundo; pertencia ao mundo dos mortos. Isso mesmo, dos mortos!... Eu tive esse problema durante a infância. Dos oito aos quatorze anos, por onde andasse me deparava com ‘pessoas’ do mundo dos mortos. Elas vinham a mim com a intenção de pedir algo, qualquer que fosse, geralmente para falar com parentes e amigos, com pedidos para que mandassem rezar missa em seu favor; qualquer coisa assim. E passei a ser assediado, usado, e meus pais não gostavam disse, e muito menos eu. Era olhado como menino problemático, de ‘miolo mole’.
Mamãe ainda dava trela a essa ‘maluquice’, aceitando que algumas pessoas da vizinhança viessem procurar informações sobre seus entes queridos. Esses apareciam simplesmente e falavam comigo para que intermediasse uma fala, conversa ou entendimento com os seus. Mas eu só podia fazer isso raramente, por retraimento dos próprios ‘espíritos’. Foi um período dos mais incomuns que eu tive que passar. A convivência com ‘fantasmas’ deixava-me acabrunhado e com aspecto doentio. Tinha pesadelos horendos; caía da cama constantemente. Para que pudesse dormir mais sossegado, meu pai mandou fazer uma cama especial, com grades dos lados. Nela me deitava segurando o dedão do pé de meu irmão, Bibi, que, ao senti-lo puxado, me acordava. Dormíamos virados ao contrário, juntando pés com cabeça.Mas eu não podia dormir um sono tranqüilo, porque logo me sentia importunado pelos novos ‘amigos’. Minha mãe inventou de chamar algumas amigas para fazer um tipo de ‘vigília’; elas contavam estórias de Troncoso, enquanto eu me esparramava no chão de esteira. Meu “amiguinho” aparecia mais pela manhã ou no horário da tarde. Hoje, no dia consagrado ao Índio, lembrei-me pela primeira vez com ternura daquele que me ‘infernizava’ a vida com suas torturas por cócegas, ih, ih, ih!... É possível até mesmo que tenha reencarnado e me deixado em paz. E, se reencarnou, veio na forma de minha sobrinha Eliane, filho do Bibi, hoje casada e mãe de filhos. Durante um período de três meses que passei em Arapiraca, todas as vezes que me aprontava para dormir, ela chegava pequenininha e graciosa, e se aboletava dos meus pés, não me deixando tirar uma soneca. Não havia quem a demovesse dali!...

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