Jornalista e escritor
A matraca, era a única coisa barulhenta que se podia ouvir durante o dia de Sexta-Feira da Paixão de minha meninice, lá pelos anos 56/57. Instrumento rude feito de madeira, formado por tabuinhas dos dois lados, pregadas por dobradiças, promovia um som um tanto quanto estridente, dado ao manejo e movimento de bate-bate nas mãos do matraqueador; som este característico do chocalho, que invadia as ruas da cidade para anunciar a programação da Igreja. E, quando reunia o matraqueador um grupo de pessoas, proclamava: “hoje, logo mais ás 16 horas, sairá da Igreja Matriz a procissão de Nosso Senhor Morto; todos devem comparecer. Depois disso, seguia na sua maratona anunciadora. A matraca substituía o toque de sino, que não dobrava na Semana Santa, principalmente na Sesta-feira da Paixão.
Nada, além da matraca podia provocar ruídos neste dia solene para lembrar a passagem do suplício de Jesus Cristo no Monte Calvário. Nem mesmo podia-se falar em voz alta, rir, gargalhar, ou consentir em brincadeiras fúteis que pudessem macular aquele momento de dor e de tristeza. Ninguém comprava ou vendia. Bebia-se apenas uma taça de vinho após o jejum que se fazia em obediência às normas cristãs, onde até água era proibido beber. Ninguém andava de automóvel, de bicicleta ou a cavalo. Durante toda Semana Santa, não se podia montar no lombo de um jumento, pois Jesus entrou em Jerusalém assim, montando num desses animais. Constituía-se pegado pentear o cabelo, fazer a barba ou tomar banho. Ninguém podia comer carne de espécie alguma. À mesa: bacalhau, peixe, feijão, arroz branco, tudo ensopado no coco; bredo e umbuzada.
Os afilhados podiam dar presentes a seus padrinhos, e vice versa, não se sabendo bem o porquê disso. Lembro-me de vexame passado por meu pai, quando bateram à nossa porta numa sexta feira da Paixão. Era um inesperado de seus compadres, vindo lá dos Caititus (sítio um tanto afastado da cidade). O homem trazia seu filho de oito para nove anos e um peru gordo, este debaixo do braço, que logo repassou ao garoto para dá-lo de presente a seu padrinho. O diálogo entre os presentes foi curto e grosso: bom dia, compadre! Bom dia! Este é seu afilhado, que veio para ser abençoado... Deus te abençoe, filho! Ô, compadre, não me lembrei de comprar nada para o garoto, e hoje não tenho como fazê-lo, pois todas as lojas estão fechadas. O homem, abruptamente, retirou o peru, que já estava nas mãos do agraciado. Tem nada não compadre!... Na segunda-feira voltaremos com o seu presente! E partiram os dois sem queixumes. Coisas da Semana Santa.
