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terça-feira, 25 de março de 2008

ARTIGO DA SEMANA
Semana de 22 a 29/03/2008
Publicado no Jonal O Rebate

BEZERRA NETO
Jornalista e escritor

A matraca e o matraqueador

A matraca, era a única coisa barulhenta que se podia ouvir durante o dia de Sexta-Feira da Paixão de minha meninice, lá pelos anos 56/57. Instrumento rude feito de madeira, formado por tabuinhas dos dois lados, pregadas por dobradiças, promovia um som um tanto quanto estridente, dado ao manejo e movimento de bate-bate nas mãos do matraqueador; som este característico do chocalho, que invadia as ruas da cidade para anunciar a programação da Igreja. E, quando reunia o matraqueador um grupo de pessoas, proclamava: “hoje, logo mais ás 16 horas, sairá da Igreja Matriz a procissão de Nosso Senhor Morto; todos devem comparecer. Depois disso, seguia na sua maratona anunciadora. A matraca substituía o toque de sino, que não dobrava na Semana Santa, principalmente na Sesta-feira da Paixão.

Nada, além da matraca podia provocar ruídos neste dia solene para lembrar a passagem do suplício de Jesus Cristo no Monte Calvário. Nem mesmo podia-se falar em voz alta, rir, gargalhar, ou consentir em brincadeiras fúteis que pudessem macular aquele momento de dor e de tristeza. Ninguém comprava ou vendia. Bebia-se apenas uma taça de vinho após o jejum que se fazia em obediência às normas cristãs, onde até água era proibido beber. Ninguém andava de automóvel, de bicicleta ou a cavalo. Durante toda Semana Santa, não se podia montar no lombo de um jumento, pois Jesus entrou em Jerusalém assim, montando num desses animais. Constituía-se pegado pentear o cabelo, fazer a barba ou tomar banho. Ninguém podia comer carne de espécie alguma. À mesa: bacalhau, peixe, feijão, arroz branco, tudo ensopado no coco; bredo e umbuzada.
Os afilhados podiam dar presentes a seus padrinhos, e vice versa, não se sabendo bem o porquê disso. Lembro-me de vexame passado por meu pai, quando bateram à nossa porta numa sexta feira da Paixão. Era um inesperado de seus compadres, vindo lá dos Caititus (sítio um tanto afastado da cidade). O homem trazia seu filho de oito para nove anos e um peru gordo, este debaixo do braço, que logo repassou ao garoto para dá-lo de presente a seu padrinho. O diálogo entre os presentes foi curto e grosso: bom dia, compadre! Bom dia! Este é seu afilhado, que veio para ser abençoado... Deus te abençoe, filho! Ô, compadre, não me lembrei de comprar nada para o garoto, e hoje não tenho como fazê-lo, pois todas as lojas estão fechadas. O homem, abruptamente, retirou o peru, que já estava nas mãos do agraciado. Tem nada não compadre!... Na segunda-feira voltaremos com o seu presente! E partiram os dois sem queixumes. Coisas da Semana Santa.

BEZERRA NETO
Jornalista e escritor
E-mail: bzneto@gmail.com

O pensamento


Semana de 15 a 22/03/2008
Há ocasiões na vida em que somos dados à introspecção de nossos próprios pensamentos. E ficamos observando um mundo de incertezas à nossa frente num estado de postergação, parecendo que tudo está perdido; que nossos problemas não têm mais solução. E nos damos a lamentações, desejando sair de todas as tribulações sem que nos movamos do canto. Chegamos mesmo num ponto em a memória nos traz lembranças antigas de que já tivemos “milhões” de amigos; uma roda de muitos amigos, mas agora estamos sozinhos, num mundo totalmente adverso e obscuro. Ficamos desesperados e, na maioria das vezes, agimos dominados apenas pelo impulso e nos sentimos aprisionados, num espaço reduzido aos aspectos materiais das coisas.
Passamos a não acreditar em Deus; ficamos isolados, no deserto de nosso próprio mundo. O coração, aflito, perturbado, a inquietação o toma. Cada novo passo leva-nos a novos temores; cada esperança leva-nos à dúvida. Buscamos saídas e não as encontramos. Outras vezes, caminhamos sem direção, sem rumo, absortos em pensamentos alheatórios, que não levam a nada. Aí, entramos num quadro triste e alternador da instabilidade emocional. Por isso, somos levados a permanecer na passividade de tudo e atraídos pelo supérfluo e pela extravagância, mas desnorteados diante da vida. As portas que poderiam levar a um futuro promissor parecem estar fechadas, porque rompemos com todas as relações anteriores. Devemos, aí, escutar a voz interior, que está sempre a nos aconselhar:
“Em todos os momentos da vida, devemos nos humilhar perante o Deus do nosso coração e reconhecer o Seu infinito poder e a nossa infinita fraqueza. Devemos manter nossos corações nos limites da retidão e dirigir nossos passos pela estrada da Virtude, pois o homem ajuda a si mesmo e aos outros quando o seu pensamento gira em torno de coisas sadias e boas, quando é levado a proceder com justiça em tudo; quando é decidido a somente a perceber bons propósitos”. Assim, sempre que tivermos dúvidas, devemos escutar o que nosso coração tem a nos dizer. Nenhum outro conselho que possam nos dar será melhor que aquele que vem do coração, onde se aloja nosso “Eu Interior” que, para muitas culturas milenares, significa o outro a natureza da vida, que existe dentro de nós ligando-nos a Deus.

BEZERRA NETO
Jornalista e escritor
E-mail: bzneto@gmail.com


Dom Hélder Câmara



Semana de 08 a 15/03/2008

Na semana passada, falei que o homem, em alguns momentos da vida se sente sozinho, abandonado por parentes e amigos, pois todos somem nas horas mais difíceis. Eu mesmo vivi momentos assim, quando morava em Recife na época da Ocupação Militar. Naquela época, conheci um homem com “H” maiúsculo: dom Hélder Câmara – uma criatura maravilhosa e sacerdote devotado inteiramente à sua religião, que o mundo do nosso tempo conheceu. Passava ele – como muitos dos que eram taxados de subversivos – por maus pedaços, cassado que era em seus direitos políticos pelos que se achavam donos do poder. Na realidade, um poder ditatorial, arbitrário (leia-se: militares, capachos desses, “inimigos ocultos” – pró “revolução 1964’, etc.etc.). O arcebispo de Olinda e Recife enfrentava toda sorte de obstáculos.
O Excelso pastor não perdia seu jeito de ser e de amar as pessoas com seu jeitão carismático e nobre. Andava com a mesma calma de sempre, pelas ruas de Recife e Olinda, cumprindo seu ministério. Um exemplo de dignidade e serviço religioso, onde não havia lugar para desesperanças. Avançava com destemor, como se estimulado por uma força divina, que não o permitia baixar a cabeça para a situação. Ia e vinha (sempre a pé, embora possuísse a Diocese dois carros novinhos na garagem), rasgando passagem entre os transeuntes; batinha já bastante surrada, encardida das nódoas do tempo. Os amigos mais afeiçoados e destemidos arriscavam-se a uma olhadela furtiva pela soleira da porta. Os amedrontados e acovardados, fugiam para longe. Ele escrevia, mas ninguém o lia. Era perigoso! Sem sermões...
Em seu livro O Deserto é Fértil, ele nos ensina: “É bom que ninguém se iluda, que ninguém aja de maneira ingênua. Quem escuta a voz de Deus e faz opção interior. e arranca-se de si e parte para a luta pacificamente por um mundo mais justo e mai fraterno, não pense que vai encontrar caminho fácil, pétalas de rosas debaixo dos pés, multidões à escuta, aplausos por toda parte e, permanentemente, como proteção decisiva a Mão de Deus. Quem se arranca de si mesmo e parte como peregrino da justiça e da paz, prepare-se par enfrentar desertos”. – E é assim: neste mundo desigual, de homens voltados apenas para seus próprios interesses, aqueles que se dividem em atenções com os demais, determinados em fazer apenas o bem enfrentarão sempre incompreensão e deslealdade às quantas!.

BEZERRA NETO
Jornalista e escritor
E-mail: bzneto@gmail.com

A abstração


Semana de 01 a 08/03/2008

Um homem é, por vezes, levado a experimentar situações as mais adversas. A pior, no meu modo de ver, é a que envolve o pensamento, levando-o a um estado de procrastinação, de não produtividade, de abstração total, porque o indivíduo se sente abandonado por parentes e amigos. Ele está só, no deserto de si mesmo; num vasto mundo de pessoas e coisas, mas “só”. Um turbilhão de pensamentos inúteis invade-lhe a mente, e ele tem medo, porque o seu mundo está conturbado, confuso, e pouco acessível. São momentos esses amargos e difíceis de tragar; resultado de uma vida em conflito em que nos colocamos à margem da razão, e aí permanecemos na hesitação de tudo, divididos na fé que temos em Deus e na avaliação das coisas que se encontram à nossa volta. Vivemos na abstração de tudo.
Ninguém poderá jamais dizer que já não teve momentos sombrios na vida, qualquer que seja o tanto, pois nem sempre estamos preparados para enfrentá-los na convivência diária com outras pessoas. Todos nós provamos da taça da boa e da má sorte, que é o recipiente onde estão depositadas as misturas das diversas paixões humanas: dúvidas, inquietações, provações, desvarios; provamos da doçura de sua bebida e esgotamos o amargor dos seus restos. Lembro-me de já ter vivido situações cruciais em que o deletério tomava conta dos meus dias. Vivia acabrunhado e ressentido da falta de apoio por parte daquelas pessoas mais ligadas e que eu achava que podiam ajudar, pelo menos com uma palavra amiga, de encorajamento nas horas difíceis. Mas via que, nessas horas todos se afastavam para longe!...
Entretanto, nunca fui de desanimar totalmente, mas me faltava “garra” para enfrentar o “mostro” que sempre aparece a nossa frente nesses momentos, impedindo a passagem. O meu mundo estava uma desarrumação só, de ponta a ponta. Foi um período triste que tive mesmo de suportar sozinho, no meu canto, acuado, amuado, como um animal ferido, necessitando da atenção das pessoas. Sentia-me sozinho, abandonado, embora estivesse cercado de amigos. Só que esses estavam muito distantes de perceber o meu problema, quando tinham os seus próprios para cuidar. E, assim, eu não via alma alguma com quem dividisse as minhas preocupações. Até que um dia chegou a minha casa um que também necessitava da ajuda de alguém, porque se sentia abandonado por todos. Bem, sobre isso falamos depois.

BEZERRA NETO
Jornalista e escritor

“Eu sou eu”


Semana de 23/02 a 01/03/2008
Deus deixa tudo ao livre arbítrio do homem, como se o quisesse testar... Mas ele mata, esfola, rouba, depois vai ao confessionário para redimir-se de culpa. E nome de Deus outro homem absolve de culpa aquele que assim procede por maldade; vende-lhe indulgências. E caminhamos debulhando o milho das espigas e guardamos debaixo da soleira os seus grãos, para não sermos roubados pelos que espreitam com olhos gordos. A mulher mata o marido para se beneficiar do seguro; o filho dá cabo da vida do próprio pai e fica com os frutos de sua herança. Nas ruas, os “trombadinhas esperam aquela velhinha que sai do banco após sacar os minguados “tostões” de sua defasada aposentadoria, e roubam-lhe... Chegam até a matar. Os “trombadões” assaltam a mão armada, e tiram a vida das pessoas por dinheiro. Os políticos enganam as massas com falsas promessas...
E é assim. O mundo de hoje é uma verdadeira Torre de Babel, empinada para o alto da degeneração, da gula, da fome de poder, da maldição de Caim. O homem é um eterno desajustado em seu próprio meio; não se contentando com pouco; ele quer sempre mais e mais. Ele fala: eu sou eu sem medir as suas palavras, por se considerar sozinho no mundo, sem ninguém ao lado. No entanto, esse que assim se auto-estima, não é nada sozinho. “Será como os sinos do vendo, cujos sons mudam de tom segundo a aragem...” - Por que dizemos nós eu sou eu? Será por falta de fé em Deus ou porque somos mesmos individualistas? O que teme o homem repartir com outro homem se a vida é efêmera e ninguém levará nada deste para o outro mundo; nem mesmo a desgraçada vaidade?

Por que não nos unimos uns aos outros e ajudamos aos demais que precisam de nossa volta; todos os homens, com amor e compreensão, aqueles mais fortes procurando levantar os mais fracos, não os deixando cair sobre suas fraquezas? Por que não procuramos compreender melhor até aos ignorantes, emprestando-lhes a devida solidariedade, a todos, indistintamente, sem esperar recompensas, quaisquer que sejam? 0 homem, se algum dia acreditar em outro homem, passará a acreditar em Deus em si mesmo. E ele não pode acreditar em outro modo de ser, pois, do contrário, será como um cristal tosco, sem brilho, que ainda falta. E andará numa base de dois polígonos paralelos, uma parte direcionada à vida soberba que leva e a outra declinadoa até o fundão do estado de morte em vida.

BEZERRA NETO
Jornalista e escritor

Abismos



Semana de 16 a 23/02/2008

Todo homem pode, independentemente de sua vontde, por razões psicológicas, ser toentado por impulsos negativos interiores que o levem a rejeitar os valores em que antes acreditava. É aí que o obscurantismo pode derramar suas trevas em nossa fé em Deus. O homem vem tentandopor inúmeras maneiras uma justificação de Deus para a sua existência; vem frequentando templos e mesquitas, rezando e apostolandop segundo os vários credos religiosos postos à sua disposição; vem especulando, às vezes dentro de propósotos compreensíveis, e outras tantas pela simples curiosidade, ou vontade de crer, de acreditar em alguma “fórmula milagrosa”. “mágica”, que o alivie na vida perturbada. E vai, em alguns lugares encontrando a paz desejada e, em outros, caindo em abismos ainda mais profundos.
Falamos de amor nos templos e em círculos associativos, nos “grupinhos”, com apelos quase dramáticos, mas nem todos os sentimentos brotam de corações bem formados. São mais frutos de vaidade; do egoísmo cego que falseia argumentos de irmandade, cujos objetivos são na verdade outros. Tudo não passa de falação deitada em momentos lúdicos, ditados por algum outro interesse, nas ocasiões em que nos encontramos revestidos da boa ação; anestesiados pela oração do momento e levados pelas promessas de auxílio mútuo, conforme a maioria das sociedades organizadas com esse objetivo, onde o homem aparece como um indivíduo gragário e afeito à solidariedade. \mas, ao sair dali, eis que cada um segue o seu próprio caminho, sem nada acrescentar em ajuda ao seu irmão.
Vivemos espreitado a casa do visinho para Saber como ele vive e o que faz para conseguir o bom emprego que tem, uma bela casa com piscina, carro e tudo o mais. Fazemos isso com o maior dos descaramentos, sem o menor constrangimento ou respeito próprio, num procedimento vil de ambição e fanância, cujos maus costumes partem, daí, para a ação violenta do furto e do roubo, que pode matar famílias inteiras; por um pedaço de pão, por um pedaço de terra; a terra que, sequer, deveria ter donos, porque é da Natureza. E o pão que, se repartido e dividido como mandam as Sagradas Escrituras, datia para todos. E nisso perdemos nossa identidade como seres humanos; além do que, vilipendiamos nossos próprios deveres para com Aquele que veio nos avisar sobre a grandeza de nos amar-mos uns aos outros.

BEZERRA NETO
Jornalista e escritor

Divagamos


Semana de 09 a 16/02/2008
Na caminhada até este ponto da nossa jornada, tivemos as mesmas dúvidas e inquietações, próprias de ser humano com relação à vida. Em muitos momentos, fizemos os mesmos questionamentos naturais a cada um que procura indagar de si mesmo a respeito da origem do Homem e do Universo: - “Quem somos e para onde vamos?” – “O que representamos perante o grande esquema cósmicos?” – “Qual será nosso papel nesta vida?” – “Existirá vida após a morte?”... E assim por diante. Por muitas vezes, em momentos tantos, estivemos prestes a sucumbir por não agüentar o peso da cruz que carregamos, madeiro por demais pesado para se levar sozinho nas horas em que a fé que temos em Deus, por algum motivo, começa a baquear; quando se tem a alma presa às injunções do corpo e da mente.
Sofremos quando somos cativos de falsas esperanças, estimuladas por dogmatismos religiosos ou crenças contrárias à razão. Foi-nos ensinado que Deus é Pai misericordioso; que ampara aos bons filhos... Mas, nas horas de aflição, quando O invocamos e nossas súplicas deixam de ser atendidas, começamos a duvidar... E caímos até o chão... Procuramos nos agarrar à esperança de obter o merecimento pelo bom filho que julgamos ser; pelo bom comportamento cristão, mas nada! Nada nos impele à gratificação celestial, nem mesmo por sermos compassivos à altura do mais humilde dos servidores da terra. Vemos, então, que o mundo em que vivemos é violento, espinhento, extremamente brabo, onde tudo tende a ser resolvido pela força; pela insensatez dos que se acham donos de tudo e de todos.
Vale em tudo a intolerável força do “olho por olho, dente por dente”, os menos agraciados da condição social sendo levados na vida aos empurrões e pela soberba vontade dos que se colocam acima das castas. Este mundo é violento em todos os aspectos sentidos. É brutal! Parece enlouquecido... E mata a quem não compartilha de sua crueldade. A sua roda gira em grande velocidade por cima das tragédias humanas. Olhamos em volta e só vemos destroços, calamidades, desigualdades sociais, injustiças. E somos conduzidos a patamares ínfimos da degradação dos próprios sentimentos, que vão rachando como uma rocha em elevado processo de deterioração, pela erosão. Ficamos como que consumidos por dentro, no íntimo de nossas fracas emoções. Deitamos em cima do enxergão do isolamento, por baixo da carona. E divagamos... Perdidos...