.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

BEZERRA NETO
Jornalista e escritor


Éramos felizes e não sabíamos

Semana de 26/01 a 02/02/2008
Brincávamos com coisas simples no nosso tempo de criança: carinhosinhos que fazíamos de carretéis de linha e caixas de fósforos vazias; jogando “doidinho” no meio da rua com bola de meia (as de borracha que existiam eram caras e nem todos os pais podiam dá-las para seus filhos). Aí, o jeito mesmo era surrupiar uma das meias do sapato do “velho”, enchê-la de pano e fazer dela uma “pelota”. Enchíamos o pé com prazer e nem reparávamos na pobreza que nos envolvia; na falta que fazia uma bola de borracha, cheinha, durinha, que repicava no chão e dava condições de belas jogadas. Tinha nada não!... Íamos aturando tudo com naturalidade. Quando não era a brincadeira de “doidinho”, brincávamos de outra coisa; brincávamos de “marido e mulher”; construindo casinhas no quintal com “caibros” feitos de carrapateiras e lá íamos “morar”.
As “mulheres” levavam miúdos de galinha e preparavam o “almoço”. Isso era procedido inocentemente, sem qualquer libidinagem, mesmo porque não sabíamos o que se passava entre os casais de verdade. Não havia maldade nem intenção de sexo. Empinávamos pipa (papagaios); jogávamos botões nas calçadas; íamos “caçar” passarinhos, armados de estilingue (ou peteca) com balas feitas de barro amassado e depois exposto ao sol para secar. Eram mais resistentes que os frutos das carrapateiras com os quais costumávamos fazer “guerrilhas” entre turmas. Para ficar com a mão certeira, abatíamos o beija-flor (que maldade!) e bebíamos do seu sangue. O “matador” fazia um corte no gancho da peteca, para mostrar que era bom de pontaria, pela quantidade de cortes feitos. Na nossa época, cada menino fazia seus próprios brinquedos, já que não havia muitos no mercado.
Brincávamos de “pega”, de jogar peão. Fazíamos nossos peões do galho da goiabeira. Mas só prestava aquele que zunisse na palma da mão, como as rodas de um carro de bois. Lembro-me do meu primeiro peão, feito de goiabeira. O fiz com tanto esmero que logo tive uma excelente oferta de compra: um tostão! Não o vendi. Adquiri mais uma ponteira na feira e vivia me exibindo todo “pabo”, para a meninada. Fazíamos “pernas de pau” para imitar os palhaços de circo. Não tínhamos televisão, rádio e muito menos Internet. Não tínhamos muito com que nos preocupar, a não ser com os deveres da escola. Andávamos a maior parte do tempo descalços, pulando cercas para “roubar” cajus nos sítios alheios, aquelas frutinhas doces como mel, amarelinhas como peito de bem-te-vi. Olhando para tudo isso, depois de passados mais de 60 anos, vemos que éramos felizes e não sabíamos.

sábado, 19 de janeiro de 2008

BEZERRA NETO
Jornalista e escritor


Uma fábula

Semana de 19/01 a 26/01/2008
Havia um reinado num grande continente cujo primeiro-ministro era sempre consultado pelo rei. Este não tomava nenhuma decisão sem antes indagar de seu fiel amigo e assessor se estava tudo de acordo com a vontade de Deus. Quando alguma desgraça ocorria naquele reinado, o ministro era logo chamado para decifrar a situação e aconselhar sua majestade sobre a decisão que devia tomar. Durante a seca prolongada na região nordeste, onde o gado morria de fome e sede, por inanição, o ministro consolava sua alteza, dizendo: - “Meu rei, não se preocupe, pois tudo quanto Deus faz e consente, é bem feito”! Durante as cheias do sudeste, onde centenas de pessoas morriam, casas sendo levadas pela correnteza, ou por deslizamentos de barreiras, o ministro estava perto do rei, confortando-o: “Senhor rei, tudo que Deus faz é bem feito”!...Todos os acontecimentos, bons ou ruins, o ministro atribuía aos poderes de Deus, “pois tudo que Ele faz ou deixa de fazer é bem feito”. – Um dia, durante uma das costumeiras caçadas, o rei perdeu um dos dedos polegares, quando socava e enchia de pólvora o cano da espingarda; ela disparou acidentalmente, estando o dedo na boca do cano. O rei queixou-se ao ministro e este, como sempre, quis acalmar ao soberano. “Senhor meu rei, saiba que tudo que Deus faz é bem feito!... Não se contendo de raiva, sua majestade mandou que prendessem o ministro nas masmorras de um presídio político. Quinze anos depois, o rei foi caçar e perdeu-se na mata, sendo apanhado por um grupo de índios canibais e fanáticos de uma tribo, que lhe aprisionou. O rei foi jogado na fogueira e estavam todos dançando e gritando em volta, na maior festança.De repente aqueles gritos e aquela dança pararam. É que haviam percebido que aquele gorduchinho não estava em seu estado físico perfeito: faltava-lhe um dos dedos da mão e, por conseguinte, não podia ser sacrificado aos deuses tribais. O feiticeiro da tribo mandou que soltassem o prisioneiro. Deram-lhe um pontapé no traseiro e mandaram-no embora. Chegando ao palácio, o rei quis ir pessoalmente soltar o seu ministro e pedir-lhe mil perdões pelo que fizera. Mandou, então, que lhe preparassem um bom banho e devolveu-lhe as vestes e as jóias de seu cargo. Em seguida, interpelou ao ministro: - por que o seu deus não o livrou da prisão? Majestade, respondeu o ministro, Ele não me livrou da prisão porque, se eu estivesse em sua companhia, quem ia ser sacrificado, hein? A mim não falta nenhum dedo!...

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

BEZERRA NETO
Jornalista e escritor
E-mail:
bzneto@gmail.com

ASA X CSE

Semana de 19 a 26/01/2008

Foi no início da década de 50 que apareceu no cenário esportivo alagoano a Agremiação Sportiva Arapiraquense – ASA, patrocinada por Antonio Rocha e um grupo de verdadeiros desportistas, entre os quais, Higino Vital, Nelson Rodrigues, José Lima Mota, Haroldo Matos Mateus, Francisco Pinheiro Tavares e Manoel Brasil. Foi nessa época também que o ASA foi melhor. Era praticado um futebol amador da melhor qualidade. Nas tardes de domingo, no campo da estação ferroviária, o alvi-rubro fazia a alegria da Cidade, jogando partidas brilhantes com adversários à altura de um CSE, por exemplo, sempre e sempre o seu maior rival em campo. As torcidas agitavam dos dois lados, sendo a do ASA a mais “quente”. Embora menino, lembro-me do episódio ocorrido em Palmeira dos Índios em 1953, quando da decisão do campeonato matuto.
Dia de muita chuva, o ASA vencia por 1X0, quando o juiz Waldomiro Breda resolveu paralisar o jogo por falta de condições, aos 35 minutos do segundo tempo. O “sururu” começou a ser cozinhado aí. Mais uma semana de espera, porque só no domingo seguinte seria terminado o embate. As duas torcidas passariam a semana na maior expectativa, agitando, conversa – vai – vai – conversa – vem – Arapiraca é terra disso – Palmeira é terra daquilo... E eis que chega o domingo “fatídico”..As duas cidades tornar-se-iam inimigas a partir desse dia. A Federação Alagoana de Desportos havia determinado que o campeão seria o vencedor nos dez primeiros minutos de partida, tempo esse que faltou ser jogado no domingo anterior, por culpa do mal tempo. Até aí, tudo bem. O jogo começa. São jogados os dez minutos e o placar não se altera.
O campeão é o ASA. Torcedores de Palmeira não aceitam. O “sururu” é requentado e o pau comeu, com jogadores esmurrando-se mutuamente e e torcedores quebrando cabo de guarda-chuvas na cabeça dos arapiraquenses. No dia seguinte (segunda-feira), os palmeirenses não tiveram acesso à feira de Arapiraca, a maior de toda a região. Piquetes armados nas embocaduras da cidade, para impedir que feirantes da “Terra dos Chucurus” entrassem. O pau comeu, agora numa armação da “Capital Brasileira do Fumo”. A polícia local colaborou, dando “cassetetadas”. Daí vem uma antiga animosidade entre palmeirenses e arapiraquenses que, graças à compreensão e boa vontade dos homens de hoje, desapareceu por completo.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

BEZERRA NETO
Jornalista e escritor
E-mail:
bzneto@gmail.com




O caga-sebo

Semana de 05/01 a 12/01/2008

A tempestade que se debateu sobre aquela parte do agreste entremeado com regiões do sertão, no mês de janeiro, com trovoadas intensas e chuvas fortes, foi assustador. Nunca se viu tanto aguaceiro; parecia que o mundo ia se acabar. As árvores eram arrancadas pela raiz, virando-a para cima; coriscava raios em profusão em meio a relâmpagos e trovões. Casebres se desmanchavam e seus escombros desciam na enxurrada, a madeira já velha e sem força para resistir. Descia tudo na enxurrada, os “cacos” de dentro das casas caídas, nada ficando inteiro ou sobrando para serventia. Morria o gado; morria toda criação de bodes, tudo corria desgovernado para a correnteza. Não ficou cerca, casa de farinha, plantações de mandioca, feijão e legumes, tudo era arrancado pela força da água, que não parava de descer do céu.
Animais e até mesmo algumas pessoas morriam, ou fulminados pelos raios, ou pela situação de flagelo. Muitas foram levadas pela grande enxurrada, meninos de colo e até gente grande. Um clamor, bem disseram aqueles que sobreviveram a toda essa agonia. Nessa tormenta, quem mais sofreu foi o pequeníssimo caga-sebo, um pássaro do tamanho de nada que vivia de comer pequenos insetos e frutos do umbuzeiro. Estava ele lá, despreocupado, quando o vento das primeiras chuvas o arrastou pelos ares em meio às folhas do pé de umbu. Voaram para longe, lá para o meio do capinzal que, por sorte, havia ali um velho e abandonado ninho de cancão, dependurado no galho de uma árvore seca. Nessa disparada em meio a galhos e garranchos o pobrezinho chegou ao ninho peladinho da silva, e se arranchou por ali mesmo. Agüentou um frio de três dias.Ao raiar do terceiro dia, a chuva amainou e parecia que as coisas iam se acalmar. Era hora de se verificar o que havia sobrado. Estavam uma clareiras de terra revirada, crateras e poças de lama. Ele levanta-se e se espreguiça na embocadura do ninho, tentando refazer-se do seu infortúnio. Para ele tinha sido um dilúvio. Procura enxergar uma saída para sua situação e não a encontra. Está assim, lamentando a sorte, quando um gavião faminto o espreita do alto, de um galho acima de onde estava, naquela árvore seca. Pretendia o gavião fisgar aquele petisco, quando apareceu um caçador observava toda a cena. Ao baixar vôo para captura do desditoso caga-sebo, o caçador dá-lhe um tiro certeiro e ele cai: peeeeiiiii. Aí, o que ia ser engolido, esbraveja revoltado com o homem da espingarda: - precisava tanta violência; tirar a vida de um ave tão bonita e indefesa?

BEZERRA NETO
Jornalista e escritor
E-mail:
bzneto@gmail.com

Meu bem-ti-vi


Semana de 29/12/2007 a 05/01/2008
Passo a maior parte do tempo no quintal. Aliás, tomo café, almoço e janto no quintal da minha casa, um bom espaço construído mas aberto, com galpão onde coloquei cadeiras de palhinha que servem para pequenas palestras e também para ensaio do coral do maestro Benedito Fonseca, onde canto ao lado de 20 coralistas do naipe escolhido pelo “Bené”. Ensaiamos músicas e arranjos de Johann Sebastian Bach e Martinho Lutero, sem esquecer as peças de autores nacionais e locais. Quando não há nada a fazer nesse sentido, armo a rede e leio, ou durmo, que “ninguém é de ferro”. Mas não fica só nisso: ao lado, num outro galpão menor, tomo minhas refeições e dou boas baforadas de cachimbo. De vez em quando, uma cachimbada, um uisquinho leve da marca que gosto e posso comprar – o velho Teachher’s.Meu “ateliê” de pintura digital fica na sala principal da casa, mas só vou lá quando me vem a inspiração buscada no quintal. Ali também recebo amigos e clientes. É adorável passar parte do tempo neste que é o meu lugar preferido de ficar. Acho que é no quintal que as melhores coisas acontecem – o canto dos pássaros nas mangueiras da vizinhança, as peripécias de Rodolfo Luiz (o gato) e Ricky Martin (cachorro), os dois endiabrados de minha filha Mila, que atormentam e dão prazer ao mesmo tempo. As coisas mais simples se tornam imbuídas de bons propósitos quando acontecem no quintal. Digo assim porque foi nesse ambiente que conheci o meu bem-ti-vi, o pássaro de peito amarelo. Seu canto normal revela o próprio nome: “bem-ti-vi”, som estridente, diferente e às vezes enigmático.
O som do canto do “meu bem-ti-vi”, porém, é revelador. Um pouco assustador também, quando é emitido para comunicar algo de ruim; mas animador na maioria das vezes, ao vê-lo comunicar uma boa nova. Parece-me que o entendo no seu irrequieto cantar, um assovio lascivo estridente e longo de prazer e arrogância, que o faz distinguido do canto das outras aves. Espero-o. Ele vem todas as manhãs e todas as tardes, algumas vezes voa rente, depois de descer das altas e frondosas mangueiras numa arrancada espetacular. Presumo que quer demonstrar a sua habilidade de bom caçador. Bem, sei que bom caçador de insetos e atenções também, porque eu já me afeiçoei a ele, na sua magnitude de vir me visitar diariamente. Causa-me boa impressão e grande emoção, ao vê-lo.